quinta-feira, 22 de maio de 2008

Uso de Animais na Ciência - 4


PONDERAÇÕES SOBRE O ENSINO

Além de ser um elemento fundamental e indispensável ao progresso da Medicina, a vivissecção é também de extrema utilidade na educação médica. O ensino nos cursos de Biologia, Farmácia e Veterinária também são inconcebíveis sem as aulas práticas em animais.

"Inconcebível". Por definição é aquilo que não é possível conceber, imaginar e/ou construir. Exploremos esse assunto :

Ao estudar o corpo humano frequentamos aulas de anatomia, exploramos literatura como Atlas Anatômicos e Histológicos e manipulamos cadavéres inteiros (ou seus fragmentos) conservados em formol (tais peças pertencem a indigentes ou cidadãos sem identificação - daí a regular cerimônia ao Cadáver Desconhecido; algumas poucas vezes alguém (ou sua família) doa o próprio corpo para fins de estudo). 

Essencialmente entretanto, boa parte do aprendizado de um médico nos primeiros 3 anos de seu curso, baseia-se no estudo do organismo humano na teoria e na intensa prática de manipulação cadavérica.

Passados meses de estudo das peças sem vida, alunos de medicina ou afins migram para estudos de peças vivas (pertencentes a cães e porcos em sua maioria). A idéia reside na manipulação invasiva de animais não-humanos que apresentem disposição e/ou anatomia de orgãos e tecidos "parecida" à encontrada em humanos. Os animais "modelos" são abertos sobre mesas cirúrgicas (dopados e/ou anestesiados – dois procedimentos bem distintos) e os alunos são orientados a executar uma série de procedimentos clínicos ou cirúrgicos no mesmo. O ensino visa transmitir ao aluno protocolos e técnicas de manipulação de orgãos vivos e observar dinamicamente os efeitos positivos e negativos que determinados fármacos ou procedimentos causam aos mesmos.

Por exemplo, administrando-se uma solução de sal potássico nos sistema circulatório do animal "modelo", o aluno pode constatar/sentir os efeitos fibrilatórios sobre a musculatura cardíaca e como o organismo responde à essa substância. O mesmo procedimento visa também mostrar ao aluno, como a administração de determinados compostos farmacêuticos podem reverter o quadro fibrilatório e letal ao orgão em questão. Um outro procedimento pode consistir em uma modificação vascular ou tecidual através do corte e sutura das partes envolvidas. Terminada a aula, o animal é sacrificado.

Perceba entretanto que somente após muitos meses, muito estudo teórico, e muitas vivisecções animais, o aluno de medicina enfrenta seu verdadeiro alvo: um ser humano vivo e real. Esse momento é sempre acompanhado de "profissionais" que já adquiriram experiência prática na manipulação de humanos e onde o mesmo, a princípio, responde pelo erro e imperícia clínica e cirúrgica de seu pupilo (caso execute alguma).

Faço questão de frisar que o aluno (ou futuro médico) enfrentará o verdadeiro alvo dele (um outro ser humano) numa situação artificial. Ainda que sua "vítima" seja um paciente real e com problemas reais, o aluno irá encontrar-se assessorado por um outro profissional que deseja a todo custo não permitir que um procedimento equivocado seja realizado (o futuro médico não enfrentará isso na sua prática profissional indepedente). Caso um procedimento equivocado seja concretizado, três situações podem ocorrer no mundo real: (1) o aluno é responsabilizado, (2) o profissional-tutor é responsabilizado, ou (3) o erro não é divulgado. Como diz o ditado "O erro médico a terra cobre".

Para o paciente que recebe a prescrição clínica ou intervenção cirúrgica, todos os profissionais à sua volta são teoricamente pessoas muito experientes na manipulação de partes vivas humanas. Mas perceba que o aluno treinou intensivamente em viviseccções de cães e porcos ! Em algum momento ele irá realizar o seu procedimento sobre um humano pela primeira vez. E essa primeira vez será tensa, perigosa e desconhecida, simplesmente por tratar-se de um ser humano real.

(Atente para o detalhe curioso de que o paciente, na maior parte das vezes, não faz a menor idéia de quem irá manipular o bisturi ou administrar o fármaco em seu organismo. Alunos de medicina precisam aprender. Se os pacientes fossem questionados sobre sua aceitação em servir de objeto de manipulação didática para aprendizes de medicina, é certo que o paciente sentiria-se inseguro e relutante. Afinal, pacientes não gostariam de serem tratados como cobaias de acadêmicos de medicina. Mas o são o tempo todo).

Muito se argumenta de que a segurança prática que alunos adquirem na manipulação humana jamais seria alcançada se o mesmo aluno não tivesse feito diversas vivisecções (ou experimentaçãoes ) animais e pudesse ver o que pode e o que não pode dar errado num dado procedimento. Resumindo : somente através dos erros e acertos praticados na vivisecção (ou experimentação) de animais não-humanos, o aluno executará com precisão um dado procedimento em humanos.

Em teoria...

Lidemos agora com alguns fatos.

Um organismo vivo é algo muito complexo.
Qualquer profissional de saúde ou estudioso das ciências naturais sabe disso.

Organismos vivos são uma intrincada associação de moléculas, células, tecidos, orgãos, sistemas, sujeitos a uma dinâmica multi-fatorial do ambiente sem precedentes.
Ainda que saibamos muito sobre organismos vivos, sabemos com certeza que sabemos muito pouco sobre o assunto.

Quando sabemos pouco sobre algo, nos dedicamos a experimentação controlada do nosso objeto de estudo. Aprendemos que o melhor modelo para praticar experimentação sobre aquilo que nos interessa, é o objeto de estudo propriamente dito (se desejo aprender a andar de moto, melhor se pratico numa moto - se desejo aprender a subir uma montanha X, melhor se pratico na montanha X).

Algumas vezes entretanto, por alguma razão, o objeto de estudo pode encontrar-se indisponível. Nessa situação, usamos modelos para estimar o comportamento/funcionamento de nosso experimento com aquilo que nos interessa. Quanto mais parecido o modelo, mais precisa será a experimentação.

A relação de semelhança entre modelo e objeto de estudo é o que distinguirá a estimativa da previsão.

E é isso o que acontece no uso de animais para a compreensão de mecanismos biológicos humanos ou para a prática de procedimentos manuais. O animal "modelo" não é modelo para o sistema humano. Humanos são modelos para o sistema humano. Defende-se que porcos tem orgãos do tamanho dos encontrados em humanos e cães são boas ferramentas para manipulação cirúrgica. Se a Ética contesta o uso de humanos como objeto de estudo direto, devemos nos perguntar porque o mesmo princípio não é aplicado aos animais não-humanos. Os argumentos sempre levantados diante dessa pergunta são :

(1) animais não-humanos não sentem dor/sofrimento;
(2) animais não-humanos não têm consciência de si mesmos como indivíduos;
(3) a vida de uma animal não-humano não equivale a de um animal humano;
(4) o homem é o único organismo que pratica Ciência;
(5) o homem pode fazê-lo e portanto o faz;
(6) animais não-humanos são inferiores (intelectualmente e moralmente) aos humanos;

Qualquer análise sincera desses tópicos esclarece a tremenda e brutal parcialidade do uso de animais não-humanos em experimentação científica e ensino biológico (uma vez que os argumentos acima são indefensáveis).

Não resulta inconcebível transmitir conhecimento evitando submeter animais a dor/sofrimento/estresse. A tecnologia humana é bastante desenvolvida para permitir que alunos da área de saúde compreendam muito bem a matéria que estão estudando sem submeter "modelos" inadequados à manipulação inescrupulosa e anti-ética.

- Não necessitamos submeter pessoas a explosões para ensiná-las sobre o poder explosivo de uma substância.
- Não precisamos conduzir alcoolizados para entender as consequências da embriaguez na condução de veículos.
- Não precisamos submeter crianças ao assédio moral para deduzir que isso possa transtorná-las no futuro.

O desenvolvimento de simuladores artificiais é tão impreciso (ou menos) quanto o uso de "modelos" animais inadequados. Entretanto o primeiro não envolve a violação de princípios básicos de dignidade a um ser vivo. Um aluno de medicina que consiga apenas aprender a suturar um tecido, ou extrair um orgão, ou cortar uma perna usando um ser vivo como referência deve se perguntar se entende de fato o material no qual fará procedimento igual (ou seja, um ser humano). Resulta ainda mais constrangedor defender o contrário diante do fato de que nenhuma pessoa deseja  submeter-se ao aprendizado do aluno nopapel de cobaia. Tal negação demonstra claramente o caráter agressivo, humilhante e indigno de ser cobaia de algo. Se ser cobaia é indigno para um homem, ainda continua o sendo para um organismo que sequer foi consultado a assumir tal posição.

Quando alguém dedica-se ao aprendizado de pilotar uma aeronave, o interessado entende que precisa dominar a teoria e o que se conhece dela. Sabe também que precisa conhecer a estrutura mecânica (anatômica) da aeronave que pretende pilotar. Sabe também que antes de lançar-se ao vôo efetivo, o uso de simuladores artificiais é aconselhado. Somente após horas de simulação de vôo, esse alguém se prestará a alçar vôo real acompanhado ou não de um tutor, transportando ou não uma tripulação e passageiros.

O futuro piloto não se prestará a pilotar uma aeronave "parecida" a que ele de fato deseja pilotar, por saber que isso não lhe confere expertise nem segurança na aeronave que ele de fato deseja pilotar!!!

Para tanto o futuro piloto preferirá escolher um simulador virtual a ter que se submeter a arriscar a própria vida em uma nave parecida ou na nave que deseja pilotar.

Ambas as situações (futuro médico e futuro piloto) necessitarão de aprendizado prévio e muita prática. Isso não se contesta. Ambos aprendizes serão orientados por pessoas mais experientes. Ambos os pupilos em algum momento sujeitarão terceiros (ignorantes em relação a serem feitos de cobaias) à teoria e pratica estudada. Qual é essencialmente então a diferença moral entre o aprendizado de medicina e o aprendizado de vôo ?

Enquanto o futuro piloto não teve a necessidade de dissecar aves diversas para entender seu mecanismo de vôo, o futuro médico/cirurgião submeteu organismos "modelos" à vivisecção para melhor entender o seu futuro instrumento de trabalho. Sendo que os "modelos" animais NÃO são seu instrumento de trabalho, isto é, não são seres humanos !

Resumindo : por mais que cães e porcos tenham sido usados em aulas práticas coletivas, o aluno jamais estará seguro de que pode desempenhar um determinado procedimento invasivo sem erro. A prática definitiva será obtida em seres humanos. Isto quer dizer que, para que um aluno possa desempenhar com frieza e segurança um dado procedimento em humanos, OU ele submeterá pacientes às suas primeiras experiências OU terá aprendido antes com modelos animais inadequados (cães, porcos, macacos, etc).

Até o final da década de oitenta, as disciplinas de Fisiologia, Farmacologia e Técnica Operatória eram amplamente ilustradas com experimentos em diferentes animais. Tais aulas não somente tornavam reais as explicações teóricas, muitas vezes difíceis de serem compreendidas, mas também ofereciam oportunidade de adestramento manual e despertavam nos alunos interesse pela pesquisa.

Interesse pela pesquisa não exige submeter os interessados a tortura de animais não-humanos. O interesse vêm da curiosidade regida pela ética.

Nos Estados Unidos, foram entrevistados médicos formados nos últimos 20 anos. Desses, 90 % tiveram experimentos em animais durante o curso de graduação, sendo que 91 % deles atribuíram grande valor a tais aulas e 93 % insistiram na necessidade de sua continuação no curso médico. Em relação à disciplina de Ética, ainda nos Estados Unidos, 93 % dos cursos de Medicina a oferecem a seus alunos. A sua duração varia entre dois e três meses, com uma a duas aulas semanais. Desses cursos, 71 % abordam a ética aplicada à pesquisa, com 74 % dos alunos assistindo a tais aulas. Não há dúvida quanto ao valor da disciplina de Ética para despertar nos alunos a consciência sobre o sofrimento do animal, apesar de sua necessidade para o ensino e pesquisa. Outro aspecto a ser abordado por essa disciplina é a importância do animal no contexto social, dando ênfase também aos aspectos legais.

"Naturalmente", o homem ciente do que é ser cobaia e a que elas são submetidas, acha primordial que animais sejam ainda utilizados na experimentação científica ou ensino biológico. O raciocínio é simples : "Contestar o uso de animais nesses procedimentos é abrir espaço para o uso de humanos como cobaias. E eu não gostaria de ser uma cobaia!"

Embora haja quase uma unanimidade entre os médicos sobre a importância dos cursos de Medicina com aulas práticas em animais, a forte influência da sociedade reduziu essas aulas consideravelmente. Assim, nos Estados Unidos, atualmente, 53% dos cursos de Fisiologia, 25 % dos de Farmacologia e 19 % dos de Cirurgia ainda "ousam" ensinar em animais vivos. Em contraposição, as escolas de Medicina têm aprendido cada vez mais a ministrar aulas com modelos alternativos, como filmes e outros recursos tecnológicos.

O próprio autor registra que as escolas de Medicina têm aprendido CADA VEZ MAIS e com o mesmo nível de qualidade, a ministrar aulas com modelos alternativos como filmes e outros recursos tecnológicos.

Essa situação é intolerável, pois, da mesma forma que não há como ensinar a escrever ou a dirigir automóvel através de filmes e simuladores, também é tosco o curso de Medicina sem os experimentos em animais vivos. Os eventuais abusos que possam ocorrer durante essas aulas práticas são facilmente controlados pelos professores com o auxílio da maioria dos alunos, que possuem um alto poder de crítica. Espera-se que não passe pela cabeça dos antiviviseccionistas a substituição dos animais por seres humanos, mostrando-se aspectos de fisiologia e farmacologia em doentes, ou ensinando-se técnica operatória durante procedimentos cirúrgicos em nossos semelhantes. É interessante lembrar a existência de alguns docentes universitários que, para negligenciar suas obrigações com os alunos, fazem discursos tendenciosos sobre as aulas práticas.

"Espera-se que não passe pela cabeça dos antiviviseccionistas a substituição dos animais por seres humanos, mostrando-se aspectos de fisiologia e farmacologia em doentes, ou ensinando-se técnica operatória durante procedimentos cirúrgicos em nossos semelhantes." Gostaria de ter acesso ao argumento LÓGICO que governa essa afirmação.

Urge que as universidades de nosso país atuem com rigor junto aos órgãos legisladores e jurídicos para prevenir as distorções já existentes em outros países, prejudicando ainda mais o nosso ensino nas áreas biomédicas.


Traduzindo : Urge que o sistema não permita o uso de humanos como cobaias, uma vez que nunca se sabe se eu, ou um ente querido meu, pode ser submetido as essas práticas horrendas!

terça-feira, 20 de maio de 2008

Uso de Animais na Ciência - 3


"REPERCUSSÕES SOCIAIS
 
A ascensão do homem sobre os animais é uma situação que perdura há milênios. A utilização de animais na alimentação é uma necessidade natural não questionada sob ponto de vista social. Mesmo as agremiações de defesa dos animais mais rigorosas pouco se interessam pelos métodos de confinamento ou pelas técnicas utilizadas para o abate. Há, entretanto, indivíduos que não se alimentam de carne de mamíferos, como uma forma de protesto contra o extermínio da vida. Por outro lado, essas pessoas comem aves, peixes e todos os vegetais, além de utilizarem objetos de madeira e de couro, todos resultantes da morte de seres vivos. Portanto, não há como questionar que a sobrevivência do homem e o seu conforto dependem diretamente da destruição de animais ou vegetais."
 
"A utilização de animais na alimentação é uma necessidade natural não questionada sob o ponto de vista social". Não há nada de natural no uso de animais para alimentação humana. O que existe na verdade é a preservação de um hábito transmitido através da cultura de gerações. Do ponto de vista anatômico e fisiológico o ser humano assemelha-se mais a um herbívoro do que a um carnívoro. Tais semelhanças podem ser identificadas mediante a Anatomia Comparada de Animais.

Característica

Carnívoros

Herbívoros

Onívoros

Humanos

Músculos Faciais

Reduzidos de modo a permitir ampla abertura bucal

Bem desenvolvidos

Reduzidos

Bem desenvolvidos

Tipo de Mandíbula/Maxila

Ângulo não expandido

Ângulo expandido

Ângulo não expandido

Ângulo expandido

Posição de articulação da Mandíbula

No mesmo plano dos molares

Acima do plano dos molares

No mesmo plano dos molares

Acima do plano dos molares

Movimento da dentição

Rente; movimento lateral mínimo

Deslocado; movimento livre no plano

Rente; movimento lateral mínimo

Deslocado; movimento livre no plano

Principais músculos da mandíbula

Temporalis

Masseter e pterigóide

Temporalis

Masseter e pterigóide

Abertura bucal x Tamanho da cabeça

Grande

Pequena

Grande

Pequena

Dentes : Incisivos

Curtos e pontiagudos

Amplos, achatados e na forma de pás

Curtos e pontiagudos

Amplos, achatados e na forma de pás

Dentes : Caninos

Longos, afiados e curvos

Cegos e curtos ou longos (para defesa) ou nenhum

Longos, afiados e curvos

Curtos e de ponta arredondada

Dentes : Molares

Afiados, com forma de lâminas irregulares

Achatados com pontas complexas

Lâminas curtas e/ou achatadas

Achatadas com pontas nodulares

Mastigação

Nenhuma; Alimento engolido em largas porções

Mastigação intensa necessária

Engole alimento inteiro e/ou esmagamento

Mastigação intensa necessária

Saliva

Sem enzimas digestivas

Enzimas digestoras de carboidratos

Sem enzimas digestivas

Enzimas digestoras de carboidratos

Tipo de estômago

Simples

Simple ou múltiplas câmaras

Simples

Simples

Acidez estomacal

Menor que ou igual a pH 1 com comida no estômago

pH 4 a 5 com comida no estômago

Menor que ou igual a pH 1 com comida no estômago

pH 4 a 5 com comida no estômago

Capacidade estomacal

60% a 70% do volume total do trato digestivo

Menos que 30% do total do trato digestivo

60% a 70% do volume total do trato digestivo

21% a 27% do volume total do trato digestivo

Comprimento do intestino delgado

3 a 6 vezes o comprimento do corpo

10 a mais do que 12 vezes o comprimento do corpo

4 a 6 vezes o comprimento do corpo

10 a 11 vezes o comprimento do corpo

Cólon

Simples, curto e liso; não ocorre fermentação

Longo, complexo; pode ser compartimentalizado; fermentação pode ocorrer

Simples, curto e liso; não ocorre fermentação

Longo, compartimentalizado; fermentação pode ocorrer

Fígado

Pode detoxificar vitamina A

Não pode detoxificar vitamina A

Pode detoxificar vitamina A

Não pode detoxificar vitamina A

Rins

Urina muito concentrada

Urina moderadamente concentrada

Urina muito concentrada

Urina moderadamente concentrada

Unhas

Garras afiadas

Unhas achatadas ou cascos arredondados

Garras afiadas

Unhas achatadas

Termostase

Hiperventilação

Perspiração

Hiperventilação

Perspiração


O consumo de carne perdura e é estimulado meramente em função de um capricho gustativo. As pessoas consomem carne porque gostam de seu gosto, textura e aroma. Só ! Esta é a verdadeira razão ! Elas simplesmente não desejam alterar um hábito adquirido desde a infância. Alegações de que o consumo de carne é imprescindível, natural e saudável são inverdades alimentadas pela indústria alimentícia e ignorância popular. Observa-se por exemplo, a ampla divulgação de que o ser humano precisa de "proteína animal" na forma de carne ou derivados destes para encontrar-se gozando de boa saúde.Uma grande bobagem! Do contrário, não haveriam tantos vegetarianos/veganos/frugívoros praticantes há décadas, saudáveis e em excelente forma física. Infelizmente, ainda são muito poucos os praticantes dessa conduta.

Nesse sentido, cabe um esclarecimento nutricional sobre o vegetarianismo e a carne :
 
- A carne, seja ela "vermelha" ou "branca", é uma agremiação de fibras musculares, fibras elásticas e colágenas, peças ósseas, tecido adiposo, vasos sanguíneos e sangue. Analisando-a de um ponto de vista mais detalhado (ainda que simplista), a carne é constituída de proteínas, lipídeos, carboidratos, ácidos nucleicos, vitaminas, sais minerais, hormônios e água. Na verdade, todo ser vivo é composto das mesmas substâncias fundamentais. Elas são a base da composição celular. O que diferencia uma peça de carne branca de uma peça de carne vermelha é em essência a organização, qualidade e composição das substâncias acima citadas. Enquanto uma é mais rica em gordura ou fibras musculares lisas, a outra será mais rica em fibras musculares estriadas. O organismo não absorve as fibras musculares. Ele as decompõe.
 
É importante destacar que ao longo da alimentação estamos de fato interessados em utilizar os blocos básicos constituintes de cada uma dessas substâncias, isto é, através do processo de digestão e absorção intestinal, o organismo busca absorver aminoácidos (blocos básicos das proteínas), lipídeos (blocos básicos das gorduras, óleos, ceras), mono e dissacarídeos (blocos básicos dos açucares), nucleotídeos (blocos básicos do DNA e RNA), sais e vitaminas. Todos os alimentos são desestruturados e decompostos ao longo do aparelho digestório. Alimentos não oriundos de fontes animais apresentam exatamente os mesmos constituintes acima citados. Reforço aqui o fato de que enquanto um vegetal pode ser mais rico em fibras celulósicas e amido, uma peça de carne pode ser mais rica em fibras colágenas e proteínas. Vegetais entretanto são também capazes de apresentar alto teor proteico, a exemplo da carne.
 
Em suma, o que de fato utilizamos na alimentação são os elementos constituintes dessas macromoléculas. Se por um lado peças de carne oferecem um grande input de proteínas, elas oferecem como contra-partida também um grande input de gorduras trans e baixo teor de carboidratos. Por outro lado, se vegetais oferecem um grande input de carboidratos, óleos e sais minerais, oferecem como contra-partida um menor input de proteínas. Em nenhum momento entretanto, a alimentação vegetariana deixa de oferecer algo que a carne possa fornecer exclusivamente. O benefício da alimentação vegetariana/vegana repousa na conscientização de que pode-se alcançar uma alimentação balanceada, diversificada, saborosa e saudável (com teores nutricionais adequados de todas as classes de macromoléculas) sem submeter animais à indústria do sofrimento e carnivorismo. Se a sociedade justifica submeter seres vivos ao mau-trato e sofrimento simplesmente por "praticidade", alegando que obter os nutrientes necessários é assim mais fácil (o que não é), então percebe-se que há um desvio de valores tremendo em justificar o fim pelos meios. Algo que aprendemos desde pequenos a considerar como inadequado.
 
Ainda sobre a "proteína animal" :

- O ser humano utiliza-se basicamente de 20 aminoácidos para a construção de suas proteínas. Desses 20 aminoácidos, 9 são considerados os aminoácidos essenciais ou indispensáveis, isto é, são 9 os aminoácidos que precisam ser obtidos através da dieta (os demais 11 são construídos a partir destes 9). Entenda-se que estes 9 aminoácidos não são mais importantes que os outros 11. Por indispensáveis, entende-se que estes não podem ser sintetizados pelo organismo a partir de moléculas primordiais. Os 9 aminoácidos essenciais citados são a fenilalanina, valina, treonina, triptofano, isoleucina, metionina, histidina, leucina e lisina.
 
O consumo de proteína animal apoia-se na lenda de que tais aminoácidos essenciais não podem ser obtidos de outras fontes alimentícias (vegetais por exemplo). Isto é sabidamente um absurdo!!! Qualquer livro de bioquímica básica esclarece o contrário. Todo e qualquer organismo vivo apresenta proteínas. Todo e qualquer organismo vivo apresenta os 20 aminoácidos acima citados. Os teores individuais de cada aminoácido em cada organismo (ou tecido/orgão animal/vegetal consumido) apresentarão variações, como era de se esperar. Mas em nenhum momento deixarão de apresentar os 20 aminoácidos necessários.

Um fígado apresenta proteínas celulares distintas das proteínas celulares encontradas na soja. Portanto, a quantidade do aminoácido X encontrado no fígado talvez seja diferente da quantidade do aminoácido Y encontrado na soja. Mas de forma alguma, repito, não serão encontrados ambos aminoácidos X e Y tanto na soja como no fígado. O rendimento na extração dos aminoácidos que nos interessam, depende da combinação alimentar e modo de preparo destes. Fica evidente portanto que obter os teores de aminoácidos essenciais ou não-essenciais numa dieta, é questão de mero planejamento e protocolo culinário.
 
Aqui, entendam também que não é necessário um planejamento logístico complexo para obter os teores nutricionais indicados pelo profissional de saúde. Basta simplesmente ter uma alimentação variada em gênero e qualidade. Diz o ditado oriental que a boa refeição é a refeição colorida (alimentos vermelhos, verdes, amarelos, escuros, etc). Pigmentação diversificada é indicativo de variedade nutricional (vitaminas, carboidratos, lipídeos, etc). Não há um ser humano que se alimente diariamente e exclusivamente de carne. O primeiro que fizer isso por um tempo razoável, terá sérios e irreversíveis problemas renais. Não somos leões. A fisiologia e alimentação humana não se compara a de um felino, por exemplo. Mesmo o mais inveterado amante da carne, complementa sua alimentação com diversos outros alimentos. É amplamente sabido o impacto que o consumo de carne causa ao organismo humano, seja alterando níveis de colesterol, pressão sanguínea, capilaridade vascular, esforço renal, hepático e biliar, dificuldade digestiva, entre outros aspectos.

O autor reforça uma idéia errônea sobre a filosofia de alimentação vegetariana/vegana : "Há, entretanto, indivíduos que não se alimentam de carne de mamíferos, como uma forma de protesto contra o extermínio da vida. Por outro lado, essas pessoas comem aves, peixes e todos os vegetais, além de utilizarem objetos de madeira e de couro, todos resultantes da morte de seres vivos." A generalização é absurdamente equivocada ! São muitos os vegetarianos que não consomem qualquer tipo de carne (seja de peixes, aves, répteis, anfíbios) e são muitos os vegetarianos que não consomem produtos oriundos de animais (couros, ovos, leite, peles, fibras, etc). Mais do que pregar o extremismo de conduta, o que o vegetarianismo prega é a não-necessidade de consumo de carne ou derivados animais para qualquer fim.

Usemos um pouco de lógica cartesiana.
 
- Se é possível obter o mesmo teor nutricional de fontes alternativas, porque submeter organismos sencientes ao sofrimento desnecessário ? O argumento de que resulta caro e trabalhoso é sabidamente descabido.

- Porque causar sofrimento a organismos não-humanos, para atender um capricho cultural ? Era um costume antigo também ter escravos, humilhar o gênero feminino e sacrificar crianças em oferenda a deuses.

- Se a carne é tão especial e insubstituível na alimentação humana, porque não se consome carne humana ? Afinal, humanos e não-humanos sentem dor e medo, isso não se contesta mais em nenhuma esfera.

- A tecnologia desenvolvida na agricultura e processamento de alimentos torna necessária ainda a prática de abates e confino de animais para fins alimentícios ? Podemos lançar bases aeroespaciais e voar pelos céus, mas não podemos processar alimentos vegetais de modo a extrair destes os nutrientes necessarios ?
 
Cabe lembrar que nem todo praticante do vegetarianismo é incoerente com sua conduta de causar menor impacto ambiental. A simples existência humana causa impacto sobre o ambiente, isso é evidente e inevitável. Humanos são hoje mais de 6,6 bilhões e ocupam toda a superfície terrestre, seja em clima árido, gélido, tropical, temperado. O homem transita pelos céus, mares, subterrâneos, estratosfera e superfície terrestre. Nem as baratas são tão epidêmicas como o H.sapiens. O que busca-se com o vegetarianismo e veganismo é causar o menor impacto possível no ambiente diante dos notórios problemas que a população humana causa neste planeta. A re-educação alimentar é um bom começo.
 
"A sociedade também aceita e até estimula a utilização de animais como meio de transporte e em vários esportes ou diversões, entre os quais se destacam a caça e pesca, touradas e contendas entre animais. Esses "esportes", absolutamente covardes e que levam os animais a grandes sofrimentos antes de serem mortos, são "ignorados" pela maioria das sociedades protetoras de animais que, no máximo, protesta de forma tímida e fugaz. Quando a lei proíbe algum tipo de caça ou pesca, não visa evitar o sofrimento ou a morte do animal, mas previne o extermínio da espécie."
 
"Tanto isso é verdade, que a maioria das proibições são temporárias. Também não há qualquer manifestação contra as religiões que utilizam animais em suas cerimônias, por se tratar de um tema "sagrado" ou tabu intocável."
 
O autor de novo incorre em erro gravíssimo ao fazer generalizações. A sociedade aceita a crueldade com não-humanos (seja no entretenimento, culto religioso, ou afins) graças ao cultivo do auto-engano (a capacidade de ignorar fatos concretos e indesejados em prol de um benefício egoísta e caprichoso).
 
"Todavia, são cada vez mais freqüentes os movimentos dos antiviviseccionistas contra os pesquisadores que utilizam animais em seus trabalhos. É difícil acreditar que essas pessoas estejam imbuídas apenas de ideais nobres ao defenderem os animais, quando há outros benefícios oriundos de suas agremiações. O poder dos líderes de tais associações pode levá-los a uma rápida e segura ascensão econômica, e política, à custa de uma massa de indivíduos que pouco refletem sobre a sua luta contra o progresso científico. O mais curioso é que os pesquisadores dos países mais desenvolvidos são os que mais sofrem com esse problema."
 
Nota-se um evidente preconceito do autor em relação às motivações de grupos defensores dos animais e contrários ao seu uso em experimentação científica, por exemplo. Ainda que existam casos como os mencionados pelo autor, a generalização é imprópria. Seguiria a mesma linha de raciocínio dizer que são criminosos todos os indivíduos de cor parda ou negra, em função desse contingente da população apresentar uma maior participação em crimes convencionais.
 
"Observa-se, na legislação voltada à pesquisa em áreas biomédicas, o absurdo de ser mais fácil realizar estudos com voluntários humanos do que com animais. Nos códigos de direito dos animais, com poder de lei, há artigos que podem comprometer qualquer pesquisador, independente de suas boas intenções ou importância de seu trabalho para a humanidade. Mesmo dentro da classe médica, os trabalhos com humanos são muito mais valorizados e é fácil perceber a segregação de médicos, enquanto pesquisadores em nível experimental, pelos seus colegas que lidam com atividade clínica.
 
O desestímulo à pesquisa é mundial, pois, excluindo os empregados dos grandes laboratórios farmacêuticos, a maioria dos médicos-pesquisadores é mal remunerada, comparando-se com os honorários recebidos por atividade clínica. Os irrisórios recursos investidos na pesquisa em nosso país e que obrigam ao financiamento das investigações pelo próprio pesquisador são um outro capítulo, mas que deve ser lembrado, para destacar que o pesquisador é um verdadeiro idealista, cujo trabalho é o que mais contribui para o progresso da Medicina.
 
É evidente, que em todos os campos de atividade humana, existem pessoas com desvios de caráter. Há também, entre os pesquisadores, alguns despreparados que exercem um trabalho imoral e que atende apenas a instintos cruéis. Tais indivíduos não devem ser considerados pesquisadores e constituem uma extrema minoria, que não pode, de forma alguma, ser utilizada para manchar toda uma classe de profissionais íntegros e indispensáveis à sociedade.
 
Não há dúvida de que se deve ter respeito pela vida e pelo sofrimento dos animais, reduzindo-lhes a dor, sempre que for possível, mas não se pode esquecer que o objetivo maior da pesquisa biomédica é aliviar o homem de seus males. Modelos alternativos, como os experimentos com órgão isolados, seres inferiores e os ligados à tecnologia são muito limitados e raramente substituem os animais apropriados a cada trabalho científico.
 
Para fortalecer a sua imagem diante dos colegas e da sociedade, o pesquisador deve submeter-se aos códigos legais. Lamentavelmente, a maioria dos legisladores não têm qualquer envolvimento com pesquisa científica e esse despreparo resulta na formulação de leis dificilmente obedecidas. Para evitar tais distorções, têm sido criadas comissões de ética que reúnem pessoas de diferentes ramos profissionais e com pontos de vista variados, para legislarem com menos arbítrio. Todavia, apesar de sempre convidados, os pesquisadores dispõem de pouco tempo para participar dos longos debates, que ordinariamente ocorrem em tais comissões. Por outro lado, os antiviviseccionistas são os que mais têm tempo para defender os seus interesses e se posicionarem, de princípio, contra a atividade científica.
 
O primeiro país a criar comissões de ética para pesquisa com animais foi a Suécia, em 1979. Os Estados Unidos adotaram essa prática em 1984, enquanto o Brasil somente passou a constituir tais grupos nesta década. É importante que dessas comissões façam parte pessoas capazes de avaliar a natureza e as conseqüências que determinado trabalho pode trazer. Os membros das comissões de ética e os legisladores têm a difícil tarefa de conciliar os aspectos éticos com os interesses científicos, econômicos, comerciais e legais. Observa-se, portanto, que existe ainda um longo caminho a percorrer antes de se atingir uma perfeita harmonia entre os pesquisadores e a sociedade."

Sabe-se hoje que o ser humano (Homo sapiens) apresenta 98% de similaridade genômica com o chimpanzé (http://en.wikipedia.org/wiki/Chimpanzee_genome_project). Uma análise mais detalhada desse tema pode ser obtida no artigo científico de 2005 de Ajit Varki e Tacha K. Altheide da Univ. da Califórnia (San Diego - USA) publicada na revista Genome Research vol 15, páginas 1746-1758 (www.genome.org).
 
Apesar dessa "pequena" diferença genômica, nos consideramos "tremendamente "diferentes de um macaco comum. De fato, reconheço que sejamos bem diferentes em muitos aspectos a um primata, a um cão, suíno, rato ou outro animal.

Mas afinal, em que aspectos exatamente somos diferentes destes, e em que aspectos somos iguais ?

Me parece que nossa espécie escolhe descaradamente semelhanças e diferenças segundo sua própria conveniência. Somos semelhantes na hora de usá-los como modelos experimentais, mas somos únicos e singulares na hora de usufruir de direitos à dignidade e ao respeito.

São paradoxos morais e científicos constrangedores para um ser auto-intitulado racional.

Se por um lado consideramos um desvio de dois graus centígrados na temperatura corpórea infantil algo sério, porque ignoramos que os animais usados como modelos experimentais já apresentam naturalmente uma diferença de dois graus centígrados em relação à nossa temperatura, diferença essa que seguramente reflete-se no comportamento molecular de suas células e constituintes ? Aliás, com que petulância (diante do pouco que conhecemos sobre o mecanismo molecular da vida), podemos afirmar que essa diferença (e tantas outras) não interferem na mecânica atomística inter e intracelular de um orgão/tecido/ser vivo ? Como extrapolar com segurança o efeito causado por uma composição farmacológica usada em modelos animais os quais sabidamente diferem fisiologicamente, genomicamente, anatomicamente, psicologicamente da espécie humana ? Não resulta uma perda preciosa de tempo e recursos experimentar drogas em animais quando o único modelo experimental que se presta a conclusões precisas do ponto de vista científico seja o próprio Homo sapiens ? Gritamos aos quatro ventos que animais não apresentam linguagem desenvolvida e os usamos para avaliar respostas laboratoriais através de inferências totalmente subjetivas. Não faz mais sentido usarmos organismos semelhantes biologicamente que ainda por cima possam se comunicar conosco de forma precisa, indicando os verdadeiros rumos de uma pesquisa séria ?

A contestação clássica sustenta que usar humanos em experimentação científica é contrário à Ética e Imoral. O argumento faria sentido se o próprio homem não contrariasse a própria ética e moralidade diariamente (seja em escala individual e coletiva) sujeitando milhões de pessoas à fome e privação de recursos básicos devido a utilização de um sistema econômico desigual e explorador. A Ética e Moralidade não é contestada quando a sociedade julga e condena milhares/milhões de pessoas por crimes que estes cometem contra o semelhante, enquanto pais de família ganham salários miseráveis para alimentar filhos que são criados segundo os valores mais conservadores. Ignora-se a Ética e Moral quando um condenado é mantido inútil e irrecuperável em uma penitenciária (ao invés de servir à Ciência e à Sociedade de modo recíproco), quando bilhões de animais são submetidos a elucubrações científicas das mais variadas apoiando-se em um sistema de extrapolações lógicas das mais furadas. O homem é muito ético e moral quando famílias ficam sem água para satisfazer interesses de empresários megalômanos apoiados pelo governo e lobbys empresariais. É ético e moral que uma minoria populacional detenha grande parte da riqueza moderna enquanto bilhões vivem em estado de sub-existência. Não contesta-se qualquer violação ética e moral em ferir e usar animais como objetos, invariavelmente condenando-lhes a morte (seja pela ciência, seja pela alimentação), enquanto homens que violaram todas as regras básicas da sociedade, refastelam-se por toda uma existência às expensas dos impostos cobrados do cidadão que trabalha arduamente de manhã à noite.

Não acho que o argumento de respeito a ética e moral deva ser exposto por qualquer um enquanto a mesma pessoa que o levanta, não faça uma auto-análise sincera das suas práticas e valores. Não se pode usar lógica para A e não para B, quando A = B.

São pontos simples na verdade, absurdamente óbvios, mas cosntantemente ignorados por pura conveniência humana :

- Se notamos claramente a diferença entre macacos e homens, como podemos justificar a experimentação com animais tais como camundongos, coelhos e cães ?

- Se notamos semelhanças entre macacos e homens, porque uns tem direitos e outros não ?

- Se assumimos que ambos tem sistemas biológicos parecidos (ou orgãos equivalentes), como podemos então achar que uns sentem dor e outro não ?

O uso de modelos animais na ciência apoia-se em um princípio errôneo: animais não são modelos biológicos para o Homo sapiens. Por modelo entendemos algo que representa idealmente um dado referencial. Animais apresentam peculiaridades biológicas únicas. Experimentação científica em animais é perda de (1) tempo, (2) dinheiro, (3) vidas humanas que esperam décadas para a pesquisa e desenvolvimento de fármacos que poderiam ser lançados no mercado em questão de poucos anos.

Desse raciocínio, a pergunta que emerge é simples : quem seriam as pessoas usadas na experimentação científica segundo este sistema ? Eu ? Minha mãe ? Meus amigos ?

Em primeiro lugar, devemos como sociedade refletir : Enquanto sociedade, elaboramos um código de condutas grupais que devem ser seguidas. Quem não as segue, está sujeita à Justiça e julgamento. Claramente então, o homem define o que é certo e errado para o grupo. Pergunta-se : quem nesta sociedade nós, enquanto grupo, consideramos como sendo elementos que violam princípios morais e éticos básicos e são obrigados a viver afastados da convivência grupal ?

Se não temos remorso em afastá-los da vida em grupo, porque teríamos em submetê-los a experimentação científica em prol da comunidade e da ciência ? Será porque a experimentação é um procedimento humilhante, doloroso e incerto de resultados positivos ?

Interessante...

Pois justamente esses pontos deveriam ser considerados ao usarmos os mesmos procedimentos em criaturas que sentem dor, medo, têm consciência de existência e buscam o mesmo que qualquer ser humano : propagar seus genes, sentir prazer e esquivar-se do desconforto e da dor.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Uso de Animais na Ciência - 2

 
"DETERMINAÇÕES LEGAIS
 
A primeira manifestação social que tentou doutrinar as pesquisas que provocavam dor em animais vertebrados denominou-se Cruelty to Animals Act, redigida em Londres, em 1876, um ano após a anestesia geral ter sido introduzida como parte da atividade médica. Os idealizadores desse documento tiveram o objetivo de autorizar o Governo a licenciar cientistas, a regularizar os experimentos e a inspecionar as instituições de pesquisa. Os tópicos principais desse ato são:
 
1 - Os experimentos devem visar a novas descobertas ou conhecimentos de fisiologia e ser úteis para salvar ou prolongar a vida e aliviar sofrimentos.
2 - Experimentos devem ser feitos por pessoas licenciadas e registradas.
3 - Anestésicos devem ser usados para prevenir a dor.
4 - Se o animal vier a sofrer após o experimento, deve ser morto antes do fim da anestesia.
5 - O experimento não deve servir como ilustração de aula.
6 - Experimentos com dor não devem ser exibidos ao público em geral.
7 - Os experimentos não devem servir para se adquirir adestramento manual.
8 - Experiências em cães, gatos e cavalos devem ser proibidas.
 
A falta de receptividade pela comunidade científica e o desinteresse governamental, aliados ao despreparo social da época e extremismo dos parágrafos do documento resultaram em seu insucesso. O mesmo ocorreu com as declarações seguintes: Protection of Animals Acts (Escócia, 1911-1912 e Londres 1954, 1964)."
 
A comunidada científica e a sociedade de um modo geral, continuam não aceitando a maioria das restrições. O modo de vida moderno foi construído baseado na exploração ostensiva do meio-ambiente e de seus elementos. Aceitações de restrições na forma de manipular animais ou o meio-ambiente, determinariam alterações no modo de vida do ser humano moderno. E o homem moderno não quer deixar de viver exatamente do modo que vive hoje. Seu conforto e prazer é a condição prioritária nessa discussão.
 
"Pode-se considerar que a primeira legislação contemporânea sobre a Ética na Medicina, com boa aceitação internacional, foi o Código de Nüremberg (1949). O item 3 desse documento dispõe que "...o experimento com humanos deve ser baseado em resultados de experimentação com animais...". Essa norma foi incorporada pela maioria dos países e reforçou uma atitude que já existia na prática desde Hunter, Cuvier e Claude Bernard, mais de um século antes desse Código."
 
Torna-se simples entender o porque dessa lei: Após a Segunda Guerra Mundial o mundo viu-se chocado pelo tratamento diferenciado aplicado a seus semelhantes pelo regime nazista (os judeus neste caso). Os relatos de campos de concentração e experimentos científicos com judeus e outras etnias, levantou a possibilidade de que qualquer um (judeu ou não) poderia em algum momento ser vítima de procedimento similar caso fosse desejo do Estado ou Governo. Oras...Ninguém quer sujeitar-se a tal atividade. Portanto, se eu, Sociedade, instituo uma legislação que protege os direitos legais, morais e físicos de todo e qualquer humano, construo um sistema onde eu mesmo acabo por estar protegido. Tem esse mesmo objetivo a Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU - 1948). Fica evidente aqui o objetivo : Todo e qualquer humano deve ser respeitado incondicionalmente.
Os direitos dos demais organismos estão sujeitos à avaliação.
 
"Em 1959, Russell e Burch publicaram o livro The principles of humane experimental technique, no qual afirmaram que a boa pesquisa com animais deve respeitar três R's: Replacement, Reduction e Refinement. A substituição (Replacement) significava que, em vez de animais superiores, dever-se-iam utilizar formas de vida filogeneticamente mais primitivas ou experimentos simulados, com base em avanços tecnológicos. A redução (Reduction) sugeria que as pesquisas fossem realizadas com o menor número de animais e de procedimentos, que permitisse alcançar os objetivos do trabalho. O refinamento (Refine) significava para esses autores a capacidade que os pesquisadores deveriam ter para improvisar métodos que reduzissem o sofrimento dos animais, oferecendo-lhes o maior conforto possível. Os três Rs repercutiram tão favoravelmente que foram incorporados de imediato pela Royal Commission of Ethics do Reino Unido e adotados pelo governo dos Estados Unidos para a liberação de verbas aos projetos de pesquisa em áreas biomédicas."
 
Percebam o erro desta filosofia (aliás propagado até hoje) : "A substituição (Replacement) significava que, em vez de animais superiores, dever-se-iam utilizar formas de vida filogeneticamente mais primitivas ou experimentos simulados, com base em avanços tecnológicos". Voltarei a esse tema diversas vezes...
 
"Um dos mais importantes códigos de ética médica é a Declaração de Helsinque. Esse documento foi criado em um simpósio do qual participaram muitos países, na capital da Finlândia, em 1964. Revisões desse ato foram realizadas em 1975, 1983 e 1989, em novos encontros internacionais. Entre as suas sugestões, destaca-se no Artigo I, Item 1: "A pesquisa biomédica envolvendo seres humanos deve estar adaptada aos princípios científicos e basear-se em experiências de laboratório e com animais, adequadamente desenvolvidas". Essa norma é uma nítida adaptação do Código de Nüremberg."
 
De novo o lema : Primeiro teste em animais. Depois (muito depois mesmo) teste em humanos.
 
"Outro documento internacional que legisla a pesquisa em animais constitui os "Princípios Básicos do Código Internacional", redigido no Reino Unido, 1985. Sobressai na parte da "Ética para Animais de Laboratório":
 
I - Experimento com animais é necessário ao desenvolvimento científico.
II - Substituir os animais, quando possível, por modelos alternativos.
III - Todos os experimentos devem ser relevantes.
IV - Utilizar o mínimo de animais necessário para se obterem resultados válidos.
V - Preferir as espécies filogeneticamente menos desenvolvidas.
VI - Oferecer aos animais conforto adequado e aliviar a sua dor.
IX - Realizar sob anestesia os procedimentos que causam dor.
X - Matar o animal que vier a sofrer em decorrência do experimento.
XI - Não ensinar em aula procedimentos que provoquem dor.
XIV - Os experimentos devem ser realizados ou supervisionados por pessoas preparadas cientificamente.
XV - A instituição em que se realiza o experimento é responsável por ele.
 
A legislação voltada às pesquisas com animais no Brasil segue as normas internacionais, encontradas em diversos regulamentos. A Lei Federal nº 6638 de 08/05/1979 estabelece que:
 
- Todos os biotérios e centros de pesquisa devem ser registrados.
- A vivissecção de animais somente pode ser realizada sob anestesia, em locais credenciados e sob supervisão especializada.
- Os animais devem ser alojados em gaiolas apropriadas, com conforto e nutrição adequada e ser mantidos em observação por, pelo menos, 15 dias antes de iniciar-se a pesquisa.
- É proibida a vivissecção em presença de menores de idade.
 
O Ministério da Saúde, através do Conselho Nacional de Saúde estabeleceu na Resolução 1 de 15/07/1988, Decreto 93.933, de 01/1987, Capítulo II, Artigo 5, Item II, que: "A pesquisa em ser humano deve estar fundamentada na pesquisa experimental prévia, realizada em animais". Essa determinação existe na maioria dos códigos internacionais.
 
O Código de Ética Médica, Resolução CFM 1246/88 estabeleceu no Capítulo VIII (Da Pesquisa em Farmacologia), Artigo 52: "Os estudos devem ser planejados de maneira a obter o máximo de informação, utilizando-se o menor número possível de animais e devendo ser utilizados igual número de machos e fêmeas. Estudos pré-clínicos devem ser realizados em três espécies de mamíferos, sendo, pelo menos uma, não roedor. Os animais devem pertencer a linhagens bem definidas, evitando-se cepas com características genéticas especiais."
 
Por último, o Colégio Brasileiro de Experimentação Animal determinou, em seus Princípios Éticos de Pesquisa, de 1988, além do que já foi apresentado em outros códigos, que:
 
Artigo IV - Os animais selecionados para um experimento devem ser de espécie e qualidade apropriadas e apresentar boas condições de saúde, utilizando-se o número mínimo necessário para obtenção de resultados válidos. Avaliar a possibilidade de utilização de métodos alternativos.
Artigo IX - Os investigadores e funcionários devem ter qualificação e experiência adequadas para exercer procedimentos em animais vivos."
 
Existe uma suposta conduta de preservação dos animais utilizados com fins científicos. Evitar que sintam dor, sacrificá-los caso venham a sofrer em decorrência do experimento, usar o mínimo de animais necessários, não utilizá-los em aula para demonstração de dor, utilizá-los apenas em experimentos relevantes, oferecer aos animais conforto e nutrição adequada, experimentos supervisionados por pessoal preparado, vivisecção sob anestesia.
 
Esta é a proposta na teoria.
 
Por mais que profissionais do meio aleguem serem respeitadas essas condutas e que Comissões de Eticas fiscalizam rigorosamente os procedimentos acima mencionados, a verdade é muito distinta na prática (seja na indústria, na sala de aula ou no laboratório). Instituições que realizam experimentação animal são na sua essência orgãos que funcionam mediante orçamento (seja privado ou público). Dessa forma, todo orçamento deve ser administrado e adequado às necessidades da instituição. A manutenção de animais em condições padrão de confinamento, com administração de alimentação controlada, uso de anestésicos importados ou de custo elevado, uso de material de consumo laboratorial/cirúrgico específico, conservação de medicamentos usados para fins experimentais em condições adequadas, manutenção de pessoal encarregado de limpeza e cuidados animais, infraestrutura física de laboratórios animais, .etc, indica claramente que a satisfação de todos esses fatores afetam diretamente o orçamento de uma instituição. E orçamentos são controlados por burocratas. Logo, existe um conflito claro entre planejamento orçamentário e preservação dos direitos animais. Este último é sempre preterido.
 
Consideremos também que as instituições que praticam experimentação animal podem ser dividas naquelas dedicadas à pesquisa pura/aplicada e ensino, e aquelas dedicadas ao desenvolvimento de produtos ou protocolos. As que estão dedicadas à pesquisa e ensino, abrigam estudantes sujeitos ao aprendizado. Assim, é lógico que animais são utilizados como ferramentas de demonstração e teste o tempo todo (laboratorial, comportamental, ou cirúrgico). Estudantes usam-nos aos montes para aprender como aplicar injeções em artérias específicas, como matá-los de modos diversos (destroncamento medular, torção do pescoço, asfixia, sangria, entre outros), como e onde fazer incisões cirurgicas, como manipular orgãos em pleno funcionamento, quais fatores mecânicos e biofísicoquímicos alteram seu funcionamento, quais fatores ambientais influenciam o comportamento dos animais testados (privação de sono, água, comida, espaço, etc), entre muitos outros. Estudantes classicamente são orientados a aprender com no teste. E no erro. Tentativa e erro é a filosofia usada até hoje na Academia. Se ínumeros animais são perdidos nesse transcurso, pouco importa. Alunos encarregam-se de praticar à exaustão um procedimento até que o mesmo seja dominado (na realidade, a manipulação bizarra de animais nessas situações normalmente desperta instintos sádicos e curiosos dos estudantes. Não é incomum observar alunos literalmente brincando com os procedimentos em sala de aula; seja por curiosidade, seja para impressionar os colegas classe, os animais-objeto são as vítimas dessa conduta). Todas as condutas acima citadas, verificam-se ad nauseam nos cursos técnicos de zootecnia, enfermagem, biologia, veterinária, medicina e áreas da saúde afins.
 
Já nas insituições privadas, o regime que dita todas as regras de conduta apoia-se na obtenção do máximo rendimento de tempo e menor custo operacional. Assim, busca-se o maior rendimento de resultados fruto da experimentação animal, associado ao modo de práticá-lo de forma menos onerosa. Uma vez que são instituições privadas, muito do que pratica-se em suas instalações é inacessível aos olhos da comunidade cívil (por tratar-se de propriedade particular). Como o objetivo dessas instituições é a liberação de um produto final ou protocolo de interesse no mercado (um novo remédio, um novo instrumento de cirurgia, um novo protocolo clínico/veterinário), as considerações referentes a direitos animais são colocadas em última instância diante da necessidade da empresa de otimizar seus prazos e budget.
 
É a premissa do capitalismo.
 

Uso de Animais na Ciência - 1

 
Navegando pela internet, encontrei um texto de autoria de Andy Petroianu (petroian@medicina.ufmg.br), Professor Titular do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da UFMG.
 
O texto refere-se a "Aspectos éticos na pesquisa em animais" (http://www.medicina.ufmg.br/cememor/pubetica.htm)
 
Para fins de análise do tema abordado, reproduzirei aqui o texto citado e considerações minhas a respeito do assunto.
 
"REFLEXÕES HUMANÍSTICAS
 
Na cadeia alimentar, os animais superiores, em menor número, devem procurar, para se nutrir, os menos desenvolvidos, que geralmente são mais abundantes, mantendo assim o equilíbrio natural. O homem, em sua evolução, passou a utilizar os animais não somente como alimento, mas também para aumentar o seu conforto, transformando-os em agasalhos e empregando-os como auxiliares em seu trabalho. A sua superioridade intelectual e consequente facilidade em dominá-los fez com que o homem aproveitasse os animais com objetivos menos básicos, tais como cerimônias religiosas, atividades esportivas e de lazer, sem se importar com o sofrimento imposto a eles."
 
O autor incorre em erro ao criar a relação "animais superiores, em menor número, devem procurar, para se nutrir, os menos desenvolvidos, que geralmente são mais abundantes, buscando assim o equilíbrio natural". Observe-se que o uso do termo "superior" oferece uma noção muito vaga de seu signifcado (O que é ser superior ?) :
 
São superiores os animais com envoltório nuclear em suas células ? R: Tanto animais, vegetais, fungos como protistas apresentam células com envoltório nuclear (eucariontes), sendo os únicos a não apresentarem carioteca organismos do reino Monera (bactérias), também chamados de procariontes. É de fato hoje discutida uma reformulação da divisão taxômica dos reinos vivos em reinos Archae, Bacteria e Eukaryota.
 
São considerados organismos superiores aqueles que surgiram recentemente ao longo do processo evolutivo ? R: Estima-se que a espécie humana tenha 1 milhão de anos. Bactérias novas surgiram a bem menos tempo que isso.
 
São superiores aqueles capazes de reprodução sexuada ? R: Como é bem sabido encontramos reprodução sexuada em exemplares ancestrais uni e pluricelulares, Animais e Vegetais.
 
Seria o termo "superioridade" relacionado à população total de um dado organismo no planeta Terra ? R: Caso este fosse o critério, bactérias e insetos deveriam ser considerados os senhores deste planeta.
 
São organismos superiores aqueles que apresentam organização neural complexa ? R: Uma barata (um inseto) pode sobreviver dias sem sua cabeça uma vez que sua organização nervosa encontra-se distribuída ao longo de seu corpo. Peixes, aves, répteis, anfíbios e mamíferos diversos apresentam complexidade nervosa notável. Não existe condicionante na natureza para que organismos com maior complexidade nervosa se "alimentem" de organismos menos complexos do ponto de vista neuronal. Se fosse este o caso, não haveriam insetos saprófagos (que se alimentam de material em decomposição), nem tampouco aves de rapina (as quais normalmente se alimentam de pequenos mamíferos). Os exemplos são muitos.
 
São considerados organismos superiores aqueles capazes de planejamento futuro ou uso de ferramentas para excução de operações ? R: São conhecidos diversos exemplos de aves (corvos, p.ex), mamíferos (golfinhos, primatas, caninos, murinos, etc) que utilizam-se de ferramentas e são capazes de planejamento a posteriori.
 
São considerados organismos superiores aqueles capazes de apresentar linguagem elaborada ? R: É amplamente sabido que aves, insetos, mamíferos diversos comunicam-se de forma peculiar e complexa. O fato de que humanos não compreendam em sua plenitude o sistema usado por eles, não os coloca na condição de "seres desprovidos de linguagem".
 
São considerados superiores organismos capazes de apresentar consciência e auto-reflexão, ou seja, de pensarem sobre si mesmos e reconhecerem-se como indivíduos únicos ? R: Sabe-se hoje que animais são capazes de reconhecerem-se como indivíduos singulares (elefantes, p.ex.). A constatação da existência de consciência é tema ainda obscuro. Já diria carl Sagan : "Ausência de evidência não é evidência de ausência".
 
Em seguida, o autor destaca com propriedade que o homem manipula o reino natural a seu bel prazer, com os mais diversos objetivos e pouco dá atenção ao sofrimento imposto aos animais em detrimento de seu uso. Lamentavelmente, há novamente menção à "superioridade intelectual" do homem frente a outros organismos. Houvesse sido utilizado o termo "superioridade tecnológica", teria sido isso mais oportuno. Alguns argumentarão "Mas um fator não está relacionado ao outro?". Se isso fosse verdade, teríamos que considerar a complexidade tecnológica desenvolvida pelas colméias de abelhas, teias de aranhas, represas de castores, ninhos de aves, navegação de mamíferos, referências sempre consultadas pela comunidade científica na busca de novas soluções para seus problemas. Organismos distintos apresentam distintas peculiaridades: Elefantes conseguem sentir tremores tectônicos e alterações de máré com dias de antecedência, e cães conseguem sentir quando uma tempestade se aproxima.
 
"As menções de ética na utilização de animais para as mais diversas finalidades são muito vagas no decorrer da história. A Bíblia, tanto judaica quanto cristã e muçulmana, ao estimular o sacrifício de animais, impõe que esse ato seja feito somente por pessoas escolhidas, utilizando a forma mais rápida e menos dolorosa. Outras religiões também seguem esses preceitos, incumbindo os sacerdotes desse procedimento. Tal atitude mostra que havia a consciência do Mal, ao se matar sem ser para sobreviver, pois esse sacrifício era proibido ao povo, para não estimular instintos agressivos, naturais no ser humano."
 
Seja a bíblia um texto sério ou não, a simples menção e reconhecimento de que a execução de seres vivos é um ato de crueldade ímpar, demonstra que existe consciência do tema desde os tempos mais remotos.
 
"O incômodo de utilizar animais nas mais diferentes atividades humanas obrigou a uma postura moral explícita. Dentro da religião cristã, no século IV, Santo Agostinho preconizou o livre desejo, de acordo com a consciência de cada homem. Na mesma época, São Crisóstomo ensinou que os animais deveriam ser tratados com gentileza, por terem a mesma origem que nós. Por outro lado, São Tomás de Aquino (século XIII) afirmou que a lei moral era conferida pela razão humana, excluindo assim os direitos dos animais, por não terem alma. Dessa forma, segundo o teólogo Pe. Ritchie, os animais poderiam ser igualados à madeira e às pedras, estando à mercê dos homens para os mais diversos abusos, como se verificou nos séculos seguintes."
 
"Os filósofos, em geral, abstiveram-se de fazer considerações sobre a relação entre homem e animal. Descartes, no século XVII, considerava que os animais eram máquinas com tropismos para o desejar e o evitar. Já no século XVIII, Kant propôs o "princípio de autonomia", pelo qual o homem teria direito à posse universal, agindo com base em seus próprios valores. Portanto, como os animais não possuem valores, perderiam a liberdade individual e estariam à disposição do homem. Esse princípio foi reforçado por Hegel que, no início do século seguinte, escreveu que a ética é uma consequência da participação humana autoconsciente, não se aplicando aos animais já que estes não têm consciência.
Somente em nosso século, os pensadores voltaram-se mais aos direitos dos animais. Assim, Schweitzer, em sua reverência à vida, cita: "eu sou uma vida que deseja viver, no meio de vidas que desejam viver". Finalmente, para não estender muito este tópico, é importante lembrar as palavras de Bentham: "os animais não podem raciocinar nem falar, mas podem sofrer".
 
Nota-se que existe um dualismo entre a concessão de direitos aos animais (e portanto a consideração de sua capacidade de sentir dor e sofrimento) e seu tratamento como objetos (tão desprovidos de direitos como um lápis ou um copo). Dualismos ou multíplas versões sobre temas de relevância são sempre bemvindos e saudáveis, devemos reconhecer. Entretanto, tal discussão deve servir para criar convergências de pensamento lógico e ético assim como para proporcionar o maior benefício às partes envolvidas. É evidente que a discussão tem trazido mudanças muito pequenas nesse sentido. É adequado observar que discute-se o tratamento de animais como seres sencientes já desde muito tempo (século IV na doutrina cristã, segundo o autor), trazendo à tona a menção de que animais não devem ser considerados como objetos nem tratados como tal.
 
Parece que a discussão do tema na prática tem sido desconsiderada desde então.