segunda-feira, 12 de maio de 2008

Uso de Animais na Ciência - 2

 
"DETERMINAÇÕES LEGAIS
 
A primeira manifestação social que tentou doutrinar as pesquisas que provocavam dor em animais vertebrados denominou-se Cruelty to Animals Act, redigida em Londres, em 1876, um ano após a anestesia geral ter sido introduzida como parte da atividade médica. Os idealizadores desse documento tiveram o objetivo de autorizar o Governo a licenciar cientistas, a regularizar os experimentos e a inspecionar as instituições de pesquisa. Os tópicos principais desse ato são:
 
1 - Os experimentos devem visar a novas descobertas ou conhecimentos de fisiologia e ser úteis para salvar ou prolongar a vida e aliviar sofrimentos.
2 - Experimentos devem ser feitos por pessoas licenciadas e registradas.
3 - Anestésicos devem ser usados para prevenir a dor.
4 - Se o animal vier a sofrer após o experimento, deve ser morto antes do fim da anestesia.
5 - O experimento não deve servir como ilustração de aula.
6 - Experimentos com dor não devem ser exibidos ao público em geral.
7 - Os experimentos não devem servir para se adquirir adestramento manual.
8 - Experiências em cães, gatos e cavalos devem ser proibidas.
 
A falta de receptividade pela comunidade científica e o desinteresse governamental, aliados ao despreparo social da época e extremismo dos parágrafos do documento resultaram em seu insucesso. O mesmo ocorreu com as declarações seguintes: Protection of Animals Acts (Escócia, 1911-1912 e Londres 1954, 1964)."
 
A comunidada científica e a sociedade de um modo geral, continuam não aceitando a maioria das restrições. O modo de vida moderno foi construído baseado na exploração ostensiva do meio-ambiente e de seus elementos. Aceitações de restrições na forma de manipular animais ou o meio-ambiente, determinariam alterações no modo de vida do ser humano moderno. E o homem moderno não quer deixar de viver exatamente do modo que vive hoje. Seu conforto e prazer é a condição prioritária nessa discussão.
 
"Pode-se considerar que a primeira legislação contemporânea sobre a Ética na Medicina, com boa aceitação internacional, foi o Código de Nüremberg (1949). O item 3 desse documento dispõe que "...o experimento com humanos deve ser baseado em resultados de experimentação com animais...". Essa norma foi incorporada pela maioria dos países e reforçou uma atitude que já existia na prática desde Hunter, Cuvier e Claude Bernard, mais de um século antes desse Código."
 
Torna-se simples entender o porque dessa lei: Após a Segunda Guerra Mundial o mundo viu-se chocado pelo tratamento diferenciado aplicado a seus semelhantes pelo regime nazista (os judeus neste caso). Os relatos de campos de concentração e experimentos científicos com judeus e outras etnias, levantou a possibilidade de que qualquer um (judeu ou não) poderia em algum momento ser vítima de procedimento similar caso fosse desejo do Estado ou Governo. Oras...Ninguém quer sujeitar-se a tal atividade. Portanto, se eu, Sociedade, instituo uma legislação que protege os direitos legais, morais e físicos de todo e qualquer humano, construo um sistema onde eu mesmo acabo por estar protegido. Tem esse mesmo objetivo a Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU - 1948). Fica evidente aqui o objetivo : Todo e qualquer humano deve ser respeitado incondicionalmente.
Os direitos dos demais organismos estão sujeitos à avaliação.
 
"Em 1959, Russell e Burch publicaram o livro The principles of humane experimental technique, no qual afirmaram que a boa pesquisa com animais deve respeitar três R's: Replacement, Reduction e Refinement. A substituição (Replacement) significava que, em vez de animais superiores, dever-se-iam utilizar formas de vida filogeneticamente mais primitivas ou experimentos simulados, com base em avanços tecnológicos. A redução (Reduction) sugeria que as pesquisas fossem realizadas com o menor número de animais e de procedimentos, que permitisse alcançar os objetivos do trabalho. O refinamento (Refine) significava para esses autores a capacidade que os pesquisadores deveriam ter para improvisar métodos que reduzissem o sofrimento dos animais, oferecendo-lhes o maior conforto possível. Os três Rs repercutiram tão favoravelmente que foram incorporados de imediato pela Royal Commission of Ethics do Reino Unido e adotados pelo governo dos Estados Unidos para a liberação de verbas aos projetos de pesquisa em áreas biomédicas."
 
Percebam o erro desta filosofia (aliás propagado até hoje) : "A substituição (Replacement) significava que, em vez de animais superiores, dever-se-iam utilizar formas de vida filogeneticamente mais primitivas ou experimentos simulados, com base em avanços tecnológicos". Voltarei a esse tema diversas vezes...
 
"Um dos mais importantes códigos de ética médica é a Declaração de Helsinque. Esse documento foi criado em um simpósio do qual participaram muitos países, na capital da Finlândia, em 1964. Revisões desse ato foram realizadas em 1975, 1983 e 1989, em novos encontros internacionais. Entre as suas sugestões, destaca-se no Artigo I, Item 1: "A pesquisa biomédica envolvendo seres humanos deve estar adaptada aos princípios científicos e basear-se em experiências de laboratório e com animais, adequadamente desenvolvidas". Essa norma é uma nítida adaptação do Código de Nüremberg."
 
De novo o lema : Primeiro teste em animais. Depois (muito depois mesmo) teste em humanos.
 
"Outro documento internacional que legisla a pesquisa em animais constitui os "Princípios Básicos do Código Internacional", redigido no Reino Unido, 1985. Sobressai na parte da "Ética para Animais de Laboratório":
 
I - Experimento com animais é necessário ao desenvolvimento científico.
II - Substituir os animais, quando possível, por modelos alternativos.
III - Todos os experimentos devem ser relevantes.
IV - Utilizar o mínimo de animais necessário para se obterem resultados válidos.
V - Preferir as espécies filogeneticamente menos desenvolvidas.
VI - Oferecer aos animais conforto adequado e aliviar a sua dor.
IX - Realizar sob anestesia os procedimentos que causam dor.
X - Matar o animal que vier a sofrer em decorrência do experimento.
XI - Não ensinar em aula procedimentos que provoquem dor.
XIV - Os experimentos devem ser realizados ou supervisionados por pessoas preparadas cientificamente.
XV - A instituição em que se realiza o experimento é responsável por ele.
 
A legislação voltada às pesquisas com animais no Brasil segue as normas internacionais, encontradas em diversos regulamentos. A Lei Federal nº 6638 de 08/05/1979 estabelece que:
 
- Todos os biotérios e centros de pesquisa devem ser registrados.
- A vivissecção de animais somente pode ser realizada sob anestesia, em locais credenciados e sob supervisão especializada.
- Os animais devem ser alojados em gaiolas apropriadas, com conforto e nutrição adequada e ser mantidos em observação por, pelo menos, 15 dias antes de iniciar-se a pesquisa.
- É proibida a vivissecção em presença de menores de idade.
 
O Ministério da Saúde, através do Conselho Nacional de Saúde estabeleceu na Resolução 1 de 15/07/1988, Decreto 93.933, de 01/1987, Capítulo II, Artigo 5, Item II, que: "A pesquisa em ser humano deve estar fundamentada na pesquisa experimental prévia, realizada em animais". Essa determinação existe na maioria dos códigos internacionais.
 
O Código de Ética Médica, Resolução CFM 1246/88 estabeleceu no Capítulo VIII (Da Pesquisa em Farmacologia), Artigo 52: "Os estudos devem ser planejados de maneira a obter o máximo de informação, utilizando-se o menor número possível de animais e devendo ser utilizados igual número de machos e fêmeas. Estudos pré-clínicos devem ser realizados em três espécies de mamíferos, sendo, pelo menos uma, não roedor. Os animais devem pertencer a linhagens bem definidas, evitando-se cepas com características genéticas especiais."
 
Por último, o Colégio Brasileiro de Experimentação Animal determinou, em seus Princípios Éticos de Pesquisa, de 1988, além do que já foi apresentado em outros códigos, que:
 
Artigo IV - Os animais selecionados para um experimento devem ser de espécie e qualidade apropriadas e apresentar boas condições de saúde, utilizando-se o número mínimo necessário para obtenção de resultados válidos. Avaliar a possibilidade de utilização de métodos alternativos.
Artigo IX - Os investigadores e funcionários devem ter qualificação e experiência adequadas para exercer procedimentos em animais vivos."
 
Existe uma suposta conduta de preservação dos animais utilizados com fins científicos. Evitar que sintam dor, sacrificá-los caso venham a sofrer em decorrência do experimento, usar o mínimo de animais necessários, não utilizá-los em aula para demonstração de dor, utilizá-los apenas em experimentos relevantes, oferecer aos animais conforto e nutrição adequada, experimentos supervisionados por pessoal preparado, vivisecção sob anestesia.
 
Esta é a proposta na teoria.
 
Por mais que profissionais do meio aleguem serem respeitadas essas condutas e que Comissões de Eticas fiscalizam rigorosamente os procedimentos acima mencionados, a verdade é muito distinta na prática (seja na indústria, na sala de aula ou no laboratório). Instituições que realizam experimentação animal são na sua essência orgãos que funcionam mediante orçamento (seja privado ou público). Dessa forma, todo orçamento deve ser administrado e adequado às necessidades da instituição. A manutenção de animais em condições padrão de confinamento, com administração de alimentação controlada, uso de anestésicos importados ou de custo elevado, uso de material de consumo laboratorial/cirúrgico específico, conservação de medicamentos usados para fins experimentais em condições adequadas, manutenção de pessoal encarregado de limpeza e cuidados animais, infraestrutura física de laboratórios animais, .etc, indica claramente que a satisfação de todos esses fatores afetam diretamente o orçamento de uma instituição. E orçamentos são controlados por burocratas. Logo, existe um conflito claro entre planejamento orçamentário e preservação dos direitos animais. Este último é sempre preterido.
 
Consideremos também que as instituições que praticam experimentação animal podem ser dividas naquelas dedicadas à pesquisa pura/aplicada e ensino, e aquelas dedicadas ao desenvolvimento de produtos ou protocolos. As que estão dedicadas à pesquisa e ensino, abrigam estudantes sujeitos ao aprendizado. Assim, é lógico que animais são utilizados como ferramentas de demonstração e teste o tempo todo (laboratorial, comportamental, ou cirúrgico). Estudantes usam-nos aos montes para aprender como aplicar injeções em artérias específicas, como matá-los de modos diversos (destroncamento medular, torção do pescoço, asfixia, sangria, entre outros), como e onde fazer incisões cirurgicas, como manipular orgãos em pleno funcionamento, quais fatores mecânicos e biofísicoquímicos alteram seu funcionamento, quais fatores ambientais influenciam o comportamento dos animais testados (privação de sono, água, comida, espaço, etc), entre muitos outros. Estudantes classicamente são orientados a aprender com no teste. E no erro. Tentativa e erro é a filosofia usada até hoje na Academia. Se ínumeros animais são perdidos nesse transcurso, pouco importa. Alunos encarregam-se de praticar à exaustão um procedimento até que o mesmo seja dominado (na realidade, a manipulação bizarra de animais nessas situações normalmente desperta instintos sádicos e curiosos dos estudantes. Não é incomum observar alunos literalmente brincando com os procedimentos em sala de aula; seja por curiosidade, seja para impressionar os colegas classe, os animais-objeto são as vítimas dessa conduta). Todas as condutas acima citadas, verificam-se ad nauseam nos cursos técnicos de zootecnia, enfermagem, biologia, veterinária, medicina e áreas da saúde afins.
 
Já nas insituições privadas, o regime que dita todas as regras de conduta apoia-se na obtenção do máximo rendimento de tempo e menor custo operacional. Assim, busca-se o maior rendimento de resultados fruto da experimentação animal, associado ao modo de práticá-lo de forma menos onerosa. Uma vez que são instituições privadas, muito do que pratica-se em suas instalações é inacessível aos olhos da comunidade cívil (por tratar-se de propriedade particular). Como o objetivo dessas instituições é a liberação de um produto final ou protocolo de interesse no mercado (um novo remédio, um novo instrumento de cirurgia, um novo protocolo clínico/veterinário), as considerações referentes a direitos animais são colocadas em última instância diante da necessidade da empresa de otimizar seus prazos e budget.
 
É a premissa do capitalismo.
 

Uso de Animais na Ciência - 1

 
Navegando pela internet, encontrei um texto de autoria de Andy Petroianu (petroian@medicina.ufmg.br), Professor Titular do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da UFMG.
 
O texto refere-se a "Aspectos éticos na pesquisa em animais" (http://www.medicina.ufmg.br/cememor/pubetica.htm)
 
Para fins de análise do tema abordado, reproduzirei aqui o texto citado e considerações minhas a respeito do assunto.
 
"REFLEXÕES HUMANÍSTICAS
 
Na cadeia alimentar, os animais superiores, em menor número, devem procurar, para se nutrir, os menos desenvolvidos, que geralmente são mais abundantes, mantendo assim o equilíbrio natural. O homem, em sua evolução, passou a utilizar os animais não somente como alimento, mas também para aumentar o seu conforto, transformando-os em agasalhos e empregando-os como auxiliares em seu trabalho. A sua superioridade intelectual e consequente facilidade em dominá-los fez com que o homem aproveitasse os animais com objetivos menos básicos, tais como cerimônias religiosas, atividades esportivas e de lazer, sem se importar com o sofrimento imposto a eles."
 
O autor incorre em erro ao criar a relação "animais superiores, em menor número, devem procurar, para se nutrir, os menos desenvolvidos, que geralmente são mais abundantes, buscando assim o equilíbrio natural". Observe-se que o uso do termo "superior" oferece uma noção muito vaga de seu signifcado (O que é ser superior ?) :
 
São superiores os animais com envoltório nuclear em suas células ? R: Tanto animais, vegetais, fungos como protistas apresentam células com envoltório nuclear (eucariontes), sendo os únicos a não apresentarem carioteca organismos do reino Monera (bactérias), também chamados de procariontes. É de fato hoje discutida uma reformulação da divisão taxômica dos reinos vivos em reinos Archae, Bacteria e Eukaryota.
 
São considerados organismos superiores aqueles que surgiram recentemente ao longo do processo evolutivo ? R: Estima-se que a espécie humana tenha 1 milhão de anos. Bactérias novas surgiram a bem menos tempo que isso.
 
São superiores aqueles capazes de reprodução sexuada ? R: Como é bem sabido encontramos reprodução sexuada em exemplares ancestrais uni e pluricelulares, Animais e Vegetais.
 
Seria o termo "superioridade" relacionado à população total de um dado organismo no planeta Terra ? R: Caso este fosse o critério, bactérias e insetos deveriam ser considerados os senhores deste planeta.
 
São organismos superiores aqueles que apresentam organização neural complexa ? R: Uma barata (um inseto) pode sobreviver dias sem sua cabeça uma vez que sua organização nervosa encontra-se distribuída ao longo de seu corpo. Peixes, aves, répteis, anfíbios e mamíferos diversos apresentam complexidade nervosa notável. Não existe condicionante na natureza para que organismos com maior complexidade nervosa se "alimentem" de organismos menos complexos do ponto de vista neuronal. Se fosse este o caso, não haveriam insetos saprófagos (que se alimentam de material em decomposição), nem tampouco aves de rapina (as quais normalmente se alimentam de pequenos mamíferos). Os exemplos são muitos.
 
São considerados organismos superiores aqueles capazes de planejamento futuro ou uso de ferramentas para excução de operações ? R: São conhecidos diversos exemplos de aves (corvos, p.ex), mamíferos (golfinhos, primatas, caninos, murinos, etc) que utilizam-se de ferramentas e são capazes de planejamento a posteriori.
 
São considerados organismos superiores aqueles capazes de apresentar linguagem elaborada ? R: É amplamente sabido que aves, insetos, mamíferos diversos comunicam-se de forma peculiar e complexa. O fato de que humanos não compreendam em sua plenitude o sistema usado por eles, não os coloca na condição de "seres desprovidos de linguagem".
 
São considerados superiores organismos capazes de apresentar consciência e auto-reflexão, ou seja, de pensarem sobre si mesmos e reconhecerem-se como indivíduos únicos ? R: Sabe-se hoje que animais são capazes de reconhecerem-se como indivíduos singulares (elefantes, p.ex.). A constatação da existência de consciência é tema ainda obscuro. Já diria carl Sagan : "Ausência de evidência não é evidência de ausência".
 
Em seguida, o autor destaca com propriedade que o homem manipula o reino natural a seu bel prazer, com os mais diversos objetivos e pouco dá atenção ao sofrimento imposto aos animais em detrimento de seu uso. Lamentavelmente, há novamente menção à "superioridade intelectual" do homem frente a outros organismos. Houvesse sido utilizado o termo "superioridade tecnológica", teria sido isso mais oportuno. Alguns argumentarão "Mas um fator não está relacionado ao outro?". Se isso fosse verdade, teríamos que considerar a complexidade tecnológica desenvolvida pelas colméias de abelhas, teias de aranhas, represas de castores, ninhos de aves, navegação de mamíferos, referências sempre consultadas pela comunidade científica na busca de novas soluções para seus problemas. Organismos distintos apresentam distintas peculiaridades: Elefantes conseguem sentir tremores tectônicos e alterações de máré com dias de antecedência, e cães conseguem sentir quando uma tempestade se aproxima.
 
"As menções de ética na utilização de animais para as mais diversas finalidades são muito vagas no decorrer da história. A Bíblia, tanto judaica quanto cristã e muçulmana, ao estimular o sacrifício de animais, impõe que esse ato seja feito somente por pessoas escolhidas, utilizando a forma mais rápida e menos dolorosa. Outras religiões também seguem esses preceitos, incumbindo os sacerdotes desse procedimento. Tal atitude mostra que havia a consciência do Mal, ao se matar sem ser para sobreviver, pois esse sacrifício era proibido ao povo, para não estimular instintos agressivos, naturais no ser humano."
 
Seja a bíblia um texto sério ou não, a simples menção e reconhecimento de que a execução de seres vivos é um ato de crueldade ímpar, demonstra que existe consciência do tema desde os tempos mais remotos.
 
"O incômodo de utilizar animais nas mais diferentes atividades humanas obrigou a uma postura moral explícita. Dentro da religião cristã, no século IV, Santo Agostinho preconizou o livre desejo, de acordo com a consciência de cada homem. Na mesma época, São Crisóstomo ensinou que os animais deveriam ser tratados com gentileza, por terem a mesma origem que nós. Por outro lado, São Tomás de Aquino (século XIII) afirmou que a lei moral era conferida pela razão humana, excluindo assim os direitos dos animais, por não terem alma. Dessa forma, segundo o teólogo Pe. Ritchie, os animais poderiam ser igualados à madeira e às pedras, estando à mercê dos homens para os mais diversos abusos, como se verificou nos séculos seguintes."
 
"Os filósofos, em geral, abstiveram-se de fazer considerações sobre a relação entre homem e animal. Descartes, no século XVII, considerava que os animais eram máquinas com tropismos para o desejar e o evitar. Já no século XVIII, Kant propôs o "princípio de autonomia", pelo qual o homem teria direito à posse universal, agindo com base em seus próprios valores. Portanto, como os animais não possuem valores, perderiam a liberdade individual e estariam à disposição do homem. Esse princípio foi reforçado por Hegel que, no início do século seguinte, escreveu que a ética é uma consequência da participação humana autoconsciente, não se aplicando aos animais já que estes não têm consciência.
Somente em nosso século, os pensadores voltaram-se mais aos direitos dos animais. Assim, Schweitzer, em sua reverência à vida, cita: "eu sou uma vida que deseja viver, no meio de vidas que desejam viver". Finalmente, para não estender muito este tópico, é importante lembrar as palavras de Bentham: "os animais não podem raciocinar nem falar, mas podem sofrer".
 
Nota-se que existe um dualismo entre a concessão de direitos aos animais (e portanto a consideração de sua capacidade de sentir dor e sofrimento) e seu tratamento como objetos (tão desprovidos de direitos como um lápis ou um copo). Dualismos ou multíplas versões sobre temas de relevância são sempre bemvindos e saudáveis, devemos reconhecer. Entretanto, tal discussão deve servir para criar convergências de pensamento lógico e ético assim como para proporcionar o maior benefício às partes envolvidas. É evidente que a discussão tem trazido mudanças muito pequenas nesse sentido. É adequado observar que discute-se o tratamento de animais como seres sencientes já desde muito tempo (século IV na doutrina cristã, segundo o autor), trazendo à tona a menção de que animais não devem ser considerados como objetos nem tratados como tal.
 
Parece que a discussão do tema na prática tem sido desconsiderada desde então.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Animais como objetos


Consideremos um fato do qual ninguém em sã consciência pode negar :

Animais em nossa sociedade e época são tratados como objetos.

Como espécie, infelizmente tratamos animais do mesmo modo que tratamos uma cadeira, um lápis ou um copo.

Estes animais-objetos são utilizados por nós há seculos para fins de alimentação, cosmética, moda, trabalho forçado, experimentação científica, entretenimento, culto religioso, entre outros.

Seja um bovino (Ruminantes), um suíno (Porcos), um equíno (Cavalos), um caprino (Cabras), um murino (Camundongos), um felino (Gatos), um canino (Cães), aves, répteis, anfíbios, peixes, e tantos mais, todos estes são procriados, manipulados e/ou executados com o objetivo de beneficiar especificamente apenas um outro animal : o Homo sapiens.

Consideremos agora um fato também já amplamente conhecido pela ciência :

Animais são dotados de um complexo sistema nervoso e portanto estão claramente sujeitos a sensações de conforto/desconforto físico e emocional, prazer e dor, vontades e repulsas.

Ainda assim, alguns poderão argumentar que animais não são capazes de sentir dor ou medo, justificando portanto o porque de podermos trata-los como objetos. Se não sentem dor, não haveria conflito ético ou moral algum nisso. Ninguém acha que cometeu um delito ao quebrar um copo.

No entanto, a argumentação acima soa absurda uma vez que o estudo dos seres vivos, na forma de todos os exemplares que conhecemos (e são milhares deles), mostra exaustivamente que a dor e o medo são fundamentais à sobrevivência do indivíduo e a espécie animal ao qual este indivíduo pertence.

A dor e o medo são essencialmente intepretações de sinais nervosos desencadeados por um estímulo agressivo (físico ou emocional) que informam ao sujeito passivo dessa ação que ele deve evitar, escapar ou atenuar o estímulo recebido a fim de garantir ou prolongar sua sobrevivência ou integridade.

Sem o mecanismo da dor, organismos teriam seus corpos mutilados em diversas situações, o que claro, comprometeria sua integridade física e emocional.

Sem o mecanismo do medo, organismos ultrapassariam a barreira da segurança, mais uma vez comprometendo sua integridade física e emocional.

Considerando portanto que todos os animais obedecem à leis biológicas tão básicas como crescer e reproduzir-se, torna-se difícil defender a idéia de que animais não-humanos não estejam sujeitos aos fenômenos da dor e medo, enquanto humanos (os quais participam em grande parte da mesma história evolutiva) o estejam.

Afinal, seria apenas essa distinção entre humanos e não-humanos que embasaria a lógica de podermos tratar animais como objetos e humanos como seres privilegiados de direitos.

A biologia nos auxilia a concluir então de maneira fácil a existência de dor e medo em animais (humanos e não-humanos). Basta que nos recordemos que quando organismos biológicos tem sua integridade física e emocional comprometida, os mesmos provavelmente não poderão praticar a mais antiga e importante prática da vida : propagar seus genes através de sua prole, ou seja, "perpetuar" sua espécie.

Mas ainda assim, existe uma grande parcela de pessoas sustentando que animais não sentem dor ou medo, o que justificaria tratá-los como objetos.

Devemos nos perguntar o por que dessa teimosia ?

Inicialmente,façamos a seguinte pergunta : Como nós, humanos, identificamos o fenômeno da dor e medo alheio ?

O método científico nos ensina que o ato de inferir algo é baseado (entre vários aspectos) na observação repetida de um evento e na comparação deste com dados cujo significado seja conhecido.

Atenção aqui às duas palavras-chaves da expressão: "Comparação" e "Inferência".

Por exemplo, assumimos que um ser humano adulto sente dor, medo ou algum incômodo similar em função de suas manifestações vocais (choro), faciais (caretas), corpóreas (convulsões) e fisiológicas (pressão vascular aumentada, liberação hormonal, débito cardíaco alterado, etc) diante do estímulo supostamente agressivo.

Portanto, ao observar manifestações vocais, faciais, corpóreas e fisiológicas similares (em um recém-nascido por exemplo) inferimos que o mesmo fenômeno esteja manifestando-se.

É evidente que um indivíduo adulto que experimente dor e/ou medo pode verbalizar essas sensações através de uma linguagem que nós possamos decodificar, o que claro, nos ajuda sobremaneira a eliminar a dúvida de que o indivíduo possa "estar ou não estar sentindo dor/medo". Essa é a base da atenção médica.

Curiosamente entretanto, um recém-nascido humano não tem domínio de qualquer linguagem verbal como a praticada por um adulto mediano. Ainda assim nós nos sentimos plenamente seguros de inferir por comparação que ele possa estar sentindo dor e/ou medo, mediante a observação de manifestações visuais/sonoras de resposta ao estímulo agressivo similares às encontradas em um adulto.

A bem da verdade, um recém-nascido humano é muito mais limitado em sua linguagem que um cachorro, cavalo ou camundongo.

Assim o paradoxo instala-se. Muitos se negam a aceitar que um animal não-humano (diante de estímulos agressivos da mesma natureza) possa estar sentindo medo e/ou dor ainda que estes indivíduos estejam gritando, fugindo ou manifestando notoriamente reações de pânico ou horror similares aos exemplos acima.

Cabe repetir então a pergunta inicialmente formulada :

Por que uma grande parcela de pessoas ainda sustenta que animais não são capazes de sentir dor ou medo e logo podem ser tratados como um objeto qualquer ?

A resposta a esse julgamento deliberadamente parcial é que humanos simplesmente instituem (sem qualquer fundamentação lógica e ética) que animais não-humanos estejam livremente sujeitos a um tratamento opressor e diferenciado (quando comparado ao tratamento aplicado a indivíduos da espécie Homo sapiens) com fins explícitos de atender a conveniência e capricho do Homem.

Somente através dessa determinação sumária, o homem moderno pode sustentar os contínuos e absurdos abusos que comete contra organismos não-humanos. Em bom português, o Homem diz : "Eu não dou a mínima para os animais se tiver que me beneficiar de seu uso!"

Ao negar direitos básicos de bem-estar a animais não-humanos e conceder plenos direitos de bem-estar a animais humanos, mesmo sabendo que os primeiros também são passíveis dos desconfortos e martírios terríveis vivenciados por esses últimos, criamos um sistema hipócrita onde pode-se toda sorte de manipulação sádica a organismos diferentes do Homo sapiens. Com o explícito argumento de atender nossos caprichos.

Alerto aqui para o fato de que a História da Humanidade já registrou diversos eventos reprodutores dessa mesma filosofia. Hoje, o próprio Homem envergonha-se de recordá-los. Para fins de ilustração destaco apenas que consideravam-se negros, mulheres, judeus, indígenas, deficientes físicos, entre outros, como não detentores de características essenciais encontradas no Homem branco (o exemplar da perfeição biológica). A todos estes organismos segregados, uma vez que eram considerados como sendo "não-humanos", a privação de seus direitos mais básicos e dignos era defendida e praticada.

Assim, soa constrangedor ver que as pessoas no seu dia-a-dia esforçam-se deliberadamente (por pura conveniência e capricho) em ignorar a repetição de atitudes históricas que hoje as envergonham quando recordadas.

Ao privar animais não-humanos de direitos básicos, como a manutenção de sua integridade física e emocional, estamos jogando no lixo toda a memória acumulada ao longo de séculos de eventos que nos constrangem pela total falta de embasamento lógico e ético.

Resulta estúpido que possamos tratar animais não-humanos como objetos descartáveis e desprovidos de sensações e ao mesmo tempo proporcionemos aos animais humanos toda sorte de benefícios e extravagâncias que possam ser imaginadas.

O bom senso deveria invadir a consciência de cada pessoa e fazê-la refletir que causar sofrimento de qualquer ordem a animais não-humanos equivale a suportar a lógica de que os mesmos sofrimentos possam ser aplicados a humanos de qualquer categoria.

Infelizmente, o homem teima em apoiar-se numa lógica distorcida onde uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa...

Sendo que ambas as "coisas" são completamente idênticas.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O auto-engano


"We are accustomed to trust our commitment to truth, and to truthfulness. Our errors are easily dismissed as inevitable, given the complexity of the world and the limits of our intelligence. Self-deception disturbs us because it calls into question the purity of this commitment. It reveals how at any moment we act on passions and interests capable of filtering, deflecting, and garnishing an impartial concern for truth. It confronts us with the possibility that we may be our own greatest obstacles in a search for self-understanding and insight into the world. And it leaves us perplexed at the irony of a creature whose rationality is rivaled by a capacity for distorted reasoning, deliberate ignorance, and self-directed lies."

Mike W. Martin (Self-deception and Morality)

Tradução livre :


Estamos acostumados a confiar em nosso compromisso com a verdade propriamente dita e a sinceridade. Nossos erros são facilmente colocados de lado como inevitáveis, dada a complexidade do mundo e os limites de nossa inteligência. O auto-engano nos perturba pelo fato de nos fazer questionar a pureza desse compromisso. Ele revela como, a qualquer momento, nós agimos embasados em paixões e interesses tornando-nos capazes de filtrar, distorcer e florear um interesse em detrimento da verdade. O auto-engano nos confronta com a possibilidade de que nós possamos ser nosso maior obstáculo na busca do auto-conhecimento e percepção do mundo. E nos deixa perplexos quanto a ironia de sermos uma criatura cuja racionalidade é rivalizada pela capacidade de distorcer a reflexão, buscar deliberadamente a ignorância e mentir para si mesmo.

Nossa Senhora X

Muito bom....
 
 
"Pope John Paul II created more saints than all his predecessors of the past several centuries put together, and he had a special affinity with the Virgin Mary. His polytheistic hankerings were dramatically demonstrated in 1981 when he suffered an assassination attempt in Rome, and attributed his survival to intervention by Our Lady of Fatima: "A maternal hand guided the bullet". One cannot help wondering why she didn't guide it to miss him altogether. Others might think the team of surgeons who operated on him for six hours deserved at least a share of the credit; but perhaps their hands, too, were maternally guided. The relevant point is that it wasn't just Our Lady who, in the Pope's opinion, guided the bullet, but specifically Our Lady of Fatima. Presumably Our Lady of Lourdes, Our Lady of Guadalupe, Our Lady of Medjugorje, Our Lady of Akita, Our Lady of Zeitoun, Our Lady of Garabandal and Our Lady of Knock were busy on other errands at the time"
 
(pages 34 and 35 - God´s Delusion; Richard Dawkins)
 
Tradução livre : 
 
O Papa João Paulo II criou mais santos do que todos seus predecessores dos últimos séculos juntos, tendo ele uma especial predileção pela Virgem Maria. Suas fixações politeísticas foram dramaticamente demonstradas em 1981 quando ele sofreu um atentado em Roma, e atribuiu sua sobrevivência à intervenção de Nossa Senhora de Fátima: "Uma mão maternal desviou o projétil". Nós não podemos imaginar o porque dela não ter guiado a bala para longe dele no final das contas. Outros podem pensar que o time de cirurgiões que o operaram por seis horas mereçam no mínimo dividir alguns dos créditos ; mas talvez suas mãos também tenham sido maternalmente guiadas. O ponto relevante é que não foi apenas a Nossa Senhora X, na opinião do Papa, que desviou a bala, mas especificamente Nossa Senhora de Fátima. Provavelmente Nossa Senhora de Lourdes, Nossa Senhora de Guadalupe, Nossa Senhora de Medjugorje, Nossa Senhora de Akita, Nossa Senhora de Zeitoun, Nossa Senhora de Garanbadal e Nossa Senhora do Toc-Toc estavam ocupadas em outras proezas naquela hora.

Carta à filha (blerg!!!)

Este é um texto bonito (segue o original e sua tradução)

 

Good And Bad Reasons For Believing (Richard Dawkins)

Dear Juliet
 
Now that you are ten, I want to write to you about something that is important to me. Have you ever wondered how we know the things that we know? How do we know, for instance, that the stars, which look like tiny pinpricks in the sky, are really huge balls of fire like the sun and are very far away? And how do we know that Earth is a smaller ball whirling round one of those stars, the sun?
 
The answer to these questions is "evidence." Sometimes evidence means actually seeing ( or hearing, feeling, smelling..... ) that something is true. Astronauts have travelled far enough from earth to see with their own eyes that it is round. Sometimes our eyes need help. The "evening star" looks like a bright twinkle in the sky, but with a telescope, you can see that it is a beautiful ball - the planet we call Venus. Something that you learn by direct seeing ( or hearing or feeling..... ) is called an observation.
 
Often, evidence isn't just an observation on its own, but observation always lies at the back of it. If there's been a murder, often nobody (except the murderer and the victim!) actually observed it. But detectives can gather together lots or other observations which may all point toward a particular suspect. If a person's fingerprints match those found on a dagger, this is evidence that he touched it. It doesn't prove that he did the murder, but it can help when it's joined up with lots of other evidence. Sometimes a detective can think about a whole lot of observations and suddenly realise that they fall into place and make sense if so-and-so did the murder.
 
Scientists - the specialists in discovering what is true about the world and the universe - often work like detectives. They make a guess ( called a hypothesis ) about what might be true. They then say to themselves: If that were really true, we ought to see so-and-so. This is called a prediction. For example, if the world is really round, we can predict that a traveller, going on and on in the same direction, should eventually find himself back where he started.When a doctor says that you have the measles, he doesn't take one look at you and see measles. His first look gives him a hypothesis that you may have measles. Then he says to himself: If she has measles I ought to see...... Then he runs through the list of predictions and tests them with his eyes ( have you got spots? ); hands ( is your forehead hot? ); and ears ( does your chest wheeze in a measly way? ). Only then does he make his decision and say, " I diagnose that the child has measles. " Sometimes doctors need to do other tests like blood tests or X-Rays, which help their eyes, hands, and ears to make observations.
 
The way scientists use evidence to learn about the world is much cleverer and more complicated than I can say in a short letter. But now I want to move on from evidence, which is a good reason for believing something , and warn you against three bad reasons for believing anything. They are called "tradition," "authority," and "revelation."
 
First, tradition. A few months ago, I went on television to have a discussion with about fifty children. These children were invited because they had been brought up in lots of different religions. Some had been brought up as Christians, others as Jews, Muslims, Hindus, or Sikhs. The man with the microphone went from child to child, asking them what they believed. What they said shows up exactly what I mean by "tradition." Their beliefs turned out to have no connection with evidence. They just trotted out the beliefs of their parents and grandparents which, in turn, were not based upon evidence either. They said things like: "We Hindus believe so and so"; "We Muslims believe such and such"; "We Christians believe something else."
 
Of course, since they all believed different things, they couldn't all be right. The man with the microphone seemed to think this quite right and proper, and he didn't even try to get them to argue out their differences with each other. But that isn't the point I want to make for the moment. I simply want to ask where their beliefs come from. They came from tradition. Tradition means beliefs handed down from grandparent to parent to child, and so on. Or from books handed down through the centuries. Traditional beliefs often start from almost nothing; perhaps somebody just makes them up originally, like the stories about Thor and Zeus. But after they've been handed down over some centuries, the mere fact that they are so old makes them seem special. People believe things simply because people have believed the same thing over the centuries. That's tradition.
 
The trouble with tradition is that, no matter how long ago a story was made up, it is still exactly as true or untrue as the original story was. If you make up a story that isn't true, handing it down over a number of centuries doesn't make it any truer!
 
Most people in England have been baptised into the Church of England, but this is only one of the branches of the Christian religion. There are other branches such as Russian Orthodox, the Roman Catholic, and the Methodist churches. They all believe different things. The Jewish religion and the Muslim religion are a bit more different still; and there are different kinds of Jews and of Muslims. People who believe even slightly different things from each other go to war over their disagreements. So you might think that they must have some pretty good reasons - evidence - for believing what they believe. But actually, their different beliefs are entirely due to different traditions.
 
Let's talk about one particular tradition. Roman Catholics believe that Mary, the mother of Jesus, was so special that she didn't die but was lifted bodily in to Heaven. Other Christian traditions disagree, saying that Mary did die like anybody else. These other religions don't talk about much and, unlike Roman Catholics, they don't call her the "Queen of Heaven." The tradition that Mary's body was lifted into Heaven is not an old one. The bible says nothing on how she died; in fact, the poor woman is scarcely mentioned in the Bible at all. The belief that her body was lifted into Heaven wasn't invented until about six centuries after Jesus' time. At first, it was just made up, in the same way as any story like "Snow White" was made up. But, over the centuries, it grew into a tradition and people started to take it seriously simply because the story had been handed down over so many generations. The older the tradition became, the more people took it seriously. It finally was written down as and official Roman Catholic belief only very recently, in 1950, when I was the age you are now. But the story was no more true in 1950 than it was when it was first invented six hundred years after Mary's death.
 
I'll come back to tradition at the end of my letter, and look at it in another way. But first, I must deal with the two other bad reasons for believing in anything: authority and revelation.
 
Authority, as a reason for believing something, means believing in it because you are told to believe it by somebody important. In the Roman Catholic Church, the pope is the most important person, and people believe he must be right just because he is the pope. In one branch of the Muslim religion, the important people are the old men with beards called ayatollahs. Lots of Muslims in this country are prepared to commit murder, purely because the ayatollahs in a faraway country tell them to.
 
When I say that it was only in 1950 that Roman Catholics were finally told that they had to believe that Mary's body shot off to Heaven, what I mean is that in 1950, the pope told people that they had to believe it. That was it. The pope said it was true, so it had to be true! Now, probably some of the things that that pope said in his life were true and some were not true. There is no good reason why, just because he was the pope, you should believe everything he said any more than you believe everything that other people say. The present pope ( 1995 ) has ordered his followers not to limit the number of babies they have. If people follow this authority as slavishly as he would wish, the results could be terrible famines, diseases, and wars, caused by overcrowding.
 
Of course, even in science, sometimes we haven't seen the evidence ourselves and we have to take somebody else's word for it. I haven't, with my own eyes, seen the evidence that light travels at a speed of 186,000 miles per second. Instead, I believe books that tell me the speed of light. This looks like "authority." But actually, it is much better than authority, because the people who wrote the books have seen the evidence and anyone is free to look carefully at the evidence whenever they want. That is very comforting. But not even the priests claim that there is any evidence for their story about Mary's body zooming off to Heaven.
 
The third kind of bad reason for believing anything is called "revelation." If you had asked the pope in 1950 how he knew that Mary's body disappeared into Heaven, he would probably have said that it had been "revealed" to him. He shut himself in his room and prayed for guidance. He thought and thought, all by himself, and he became more and more sure inside himself. When religious people just have a feeling inside themselves that something must be true, even though there is no evidence that it is true, they call their feeling "revelation." It isn't only popes who claim to have revelations. Lots of religious people do. It is one of their main reasons for believing the things that they do believe. But is it a good reason?
 
Suppose I told you that your dog was dead. You'd be very upset, and you'd probably say, "Are you sure? How do you know? How did it happen?" Now suppose I answered: "I don't actually know that Pepe is dead. I have no evidence. I just have a funny feeling deep inside me that he is dead." You'd be pretty cross with me for scaring you, because you'd know that an inside "feeling" on its own is not a good reason for believing that a whippet is dead. You need evidence. We all have inside feelings from time to time, sometimes they turn out to be right and sometimes they don't. Anyway, different people have opposite feelings, so how are we to decide whose feeling is right? The only way to be sure that a dog is dead is to see him dead, or hear that his heart has stopped; or be told by somebody who has seen or heard some real evidence that he is dead.
 
People sometimes say that you must believe in feelings deep inside, otherwise, you' d never be confident of things like "My wife loves me". But this is a bad argument. There can be plenty of evidence that somebody loves you. All through the day when you are with somebody who loves you, you see and hear lots of little titbits of evidence, and they all add up. It isn't a purely inside feeling, like the feeling that priests call revelation. There are outside things to back up the inside feeling: looks in the eye, tender notes in the voice, little favors and kindnesses; this is all real evidence.
 
Sometimes people have a strong inside feeling that somebody loves them when it is not based upon any evidence, and then they are likely to be completely wrong.There are people with a strong inside feeling that a famous film star loves them, when really the film star hasn't even met them. People like that are ill in their minds. Inside feelings must be backed up by evidence, otherwise you just can't trust them.
 
Inside feelings are valuable in science, too, but only for giving you ideas that you later test by looking for evidence. A scientist can have a "hunch'" about an idea that just "feels" right. In itself, this is not a good reason for believing something. But it can be a good reason for spending some time doing a particular experiment, or looking in a particular way for evidence. Scientists use inside feelings all the time to get ideas. But they are not worth anything until they are supported by evidence.
 
I promised that I'd come back to tradition, and look at it in another way. I want to try to explain why tradition is so important to us. All animals are built (by the process called evolution) to survive in the normal place in which their kind live. Lions are built to be good at surviving on the plains of Africa. Crayfish to be good at surviving in fresh, water, while lobsters are built to be good at surviving in the salt sea. People are animals, too, and we are built to be good at surviving in a world full of ..... other people. Most of us don't hunt for our own food like lions or lobsters; we buy it from other people who have bought it from yet other people. We ''swim'' through a "sea of people." Just as a fish needs gills to survive in water, people need brains that make them able to deal with other people. Just as the sea is full of salt water, the sea of people is full of difficult things to learn. Like language.
 
You speak English, but your friend Ann-Kathrin speaks German. You each speak the language that fits you to '`swim about" in your own separate "people sea." Language is passed down by tradition. There is no other way . In England, Pepe is a dog. In Germany he is ein Hund. Neither of these words is more correct, or more true than the other. Both are simply handed down. In order to be good at "swimming about in their people sea," children have to learn the language of their own country, and lots of other things about their own people; and this means that they have to absorb, like blotting paper, an enormous amount of traditional information. (Remember that traditional information just means things that are handed down from grandparents to parents to children.) The child's brain has to be a sucker for traditional information. And the child can't be expected to sort out good and useful traditional information, like the words of a language, from bad or silly traditional information, like believing in witches and devils and ever-living virgins.
 
It's a pity, but it can't help being the case, that because children have to be suckers for traditional information, they are likely to believe anything the grown-ups tell them, whether true or false, right or wrong. Lots of what the grown-ups tell them is true and based on evidence, or at least sensible. But if some of it is false, silly, or even wicked, there is nothing to stop the children believing that, too. Now, when the children grow up, what do they do? Well, of course, they tell it to the next generation of children. So, once something gets itself strongly believed - even if it is completely untrue and there never was any reason to believe it in the first place - it can go on forever.
 
Could this be what has happened with religions ? Belief that there is a god or gods, belief in Heaven, belief that Mary never died, belief that Jesus never had a human father, belief that prayers are answered, belief that wine turns into blood - not one of these beliefs is backed up by any good evidence. Yet millions of people believe them. Perhaps this because they were told to believe them when they were told to believe them when they were young enough to believe anything.
 
Millions of other people believe quite different things, because they were told different things when they were children. Muslim children are told different things from Christian children, and both grow up utterly convinced that they are right and the others are wrong. Even within Christians, Roman Catholics believe different things from Church of England people or Episcopalians, Shakers or Quakers , Mormons or Holy Rollers, and are all utterly covinced that they are right and the others are wrong. They believe different things for exactly the same kind of reason as you speak English and Ann-Kathrin speaks German. Both languages are, in their own country, the right language to speak. But it can't be true that different religions are right in their own countries, because different religions claim that opposite things are true. Mary can't be alive in Catholic Southern Ireland but dead in Protestant Northern Ireland.
 
What can we do about all this ? It is not easy for you to do anything, because you are only ten. But you could try this. Next time somebody tells you something that sounds important, think to yourself: "Is this the kind of thing that people probably know because of evidence? Or is it the kind of thing that people only believe because of tradition, authority, or revelation?" And, next time somebody tells you that something is true, why not say to them: "What kind of evidence is there for that?" And if they can't give you a good answer, I hope you'll think very carefully before you believe a word they say.

Your loving

Daddy

Tradução livre :
 
Querida Juliet
 
Agora que você tem dez anos, quero falar com você sobre algo que é importante para mim. Você já parou pra pensar como nós sabemos as coisas que sabemos ? Como nós sabemos, por exemplo, que as estrelas, as quais parecem pequenos pontinhos no céu, são verdadeiras bolas de fogo gigantescas como o Sol e que estão muito distantes ? E como nós sabemos que a Terra é na verdade uma pequena esfera orbitando uma dessas estrelas, o Sol ?
 
A resposta para todas essas questões se chama "Evidência". Algumas vezes Evidência significa na verdade observar (ou escutar, sentir, cheirar ...) algo que é verdadeiro. Astronautas viajaram para muito longe da Terra para ver com seus próprios olhos que ela é esférica. Algumas vezes nossos olhos precisam de alguma ajuda. A "estrela da noite", por exemplo, assemelha-se com a um brilhante pisca-pisca no céu, mas com um telescópio você pode ver que ela é na verdade uma magnífica esfera - o planeta que chamamos de Vênus. Algo que se apreende através da visualização direta (ou percepção sonora ou sensação...) é chamado de uma observação.
 
Normalmente evidências não são apenas caracterizadas por uma observação, mas uma observação sempre suporta uma evidência. Se houve um assassinato, provavelmente ninguém (exceto o assassino e a vítima) presenciou o crime na verdade. Mas detetives podem juntos reunir uma série de observações as quais podem todas apontar um suspeito em particular. Se uma impressão digital bate com aquelas encontradas em uma adaga, isso é evidência de que o suspeito a tocou. Esse fato não prova que o suspeito cometeu o assassinato, mas pode ser útil quando reunida a uma série de outras evidências. Algumas vezes o detetive pode refletir sobre todo um conjunto de observações e subitamente perceber que elas se encaixam e fazem sentido se fulano-de-tal tivesse cometido o assassinato.
 
Cientistas - os especialistas em descobrir o que é verdade sobre o universo e este planeta - frequentemente trabalham como detetives. Eles fazem suposições (chamadas de hipóteses) sobre o que pode ser verdade. Eles então dizem a eles mesmos: Se isso for realmente verdade, nós devemos ver isso e isso. A isso chamamos de previsão. Por exemplo, se o planeta for realmente esférico, nós podemos prever que um viajante, indo sempre em frente numa mesma direção, deverá eventualmente chegar ao ponto de partida de onde começou. Quando um médico diz que você tem catapora, ele não olha pra você e a catapora. Sua primeira olhadela lhe dá uma hipótese de que você possa ter catapora. Então ele diz a si mesmo: Se ela tem catapora eu devo observar... Então ele percorre uma lista de previsões e testa-as com seus olhos (ela tem pontos vermelhos ?); com suas mãos (sua fronte está quente?); e ouvidos (está seu peito chiando como se tivesse uma infecção ?). Somente então ele toma sua decisão e diz : "Eu diagnostico que a criança tem catapora". Algumas vezes médicos precisam fazer outros testes como exames de sangue ou raios-X, os quais ajudarão seus olhos, mãos e ouvidos a efetuar observações.
 
O modo como cientistas usam evidências para aprender sobre o mundo é muito mais sofisticado e complicado do que eu possa dizer em uma pequena carta. Mas agora eu quero passar da evidência, o qual é uma razão para acreditar em algo, e alertar você contra três péssimas razões para acreditar em algo. Elas são chamadas "tradição", "autoridade" e "revelação".
 
Primeiramente, a tradição. A alguns meses atrás, eu fui a um programa de televisão participar de uma conversa com cerca de 50 crianças. Essas crianças foram convidadas pelo fato de que elas tinham sido educadas em diferentes tipos de religiões. Algumas cresceram como cristãs, outras como judias, muçulmanas, hindus ou sikhs. O homem com o microfone foi de criança em criança, perguntando-as no que elas acreditavam. O que elas disseram mostra exatamente o que eu quero dizer por "tradição". Suas crenças mostravam-se não ter qualquer conexão com evidências. Elas apenas manifestavam as crendices de seus pais e avós os quais, por sua vez, não foram baseadas em evidências do mesmo jeito. Elas disseram coisas como "Nós hindus acreditamos tal e tal"; "Nós muçulmanos acreditamos nisso e nisso"; "Nós cristãos acreditamos em alguma outra coisa".
 
É claro, uma vez que todas acreditavam em coisas diferentes, elas não podiam estarem todas certas. O homem com o microfone parece ter percebido isso logo e de forma apropriada, nem tentando fazê-las arguir suas diferenças umas com as outras. Mas não é esse o ponto que eu quero abordar no momento. Eu simplesmente quero perguntar de onde essas crenças vieram. Elas vieram da tradição. Por tradição entendemos crenças transferidas dos avós para os pais para os filhos, e assim por diante. Ou então de livros transmitidos através dos séculos. Crenças tradicionais frequentemente começam de quase nada; talvez alguém apenas as tenha elaborado originalmente, como as estórias sobre Thor e Zeus. Mas após elas terem sido transmitidas por alguns séculos, o mero fato de que elas são muito antigas fazem delas especiais. As pessoas acreditam em coisas simplesmente pelo fato de que pessoas tem acreditado nas mesmas coisas através dos séculos. Isso se chama tradição.
 
O problema com a tradição é que, não importa a quanto tempo atrás uma estória tenha sido elaborada, ela ainda é tão verdadeira ou falsa como a estória original foi. Se você inventa uma estória que não é verdadeira, transmiti-la por vários séculos não a torna mais verdadeira.
 
A maior parte das pessoas na Inglaterra foi batizada na Igreja da Inglaterra (Church of England), mas essa é apenas uma das facções da religião cristã. Existem outras divisões tais como a Ortodoxa Russa, a Católica Apostólica Romana e as Metodistas. Todas elas acreditam em diferentes coisas. A religião judáica e a religião muçulmana são ainda mais diferentes; e existem diferentes tipos de judeus e de muçulmanos. Pessoas que acreditam em coisas suavemente diferentes uma das outras vão à guerra sobre suas discordâncias. Portanto, você pode pensar que elas têm algumas razões muito boas (evidências) para acreditar no que elas acreditam. Mas na verdade, suas diferentes crenças são inteiramente resultado de diferentes tradições.
 
Vamos falar agora de uma tradição em particular. Católicos Apostólicos Romanos acreditam que Maria, a mãe de Jesus, era tão especial que ela não morreu mas sim foi levada em corpo para o Paraíso. Outras tradições cristãs discordam, dizendo que Maria morreu como qualquer outra pessoa. Essas outras religiões não falam muito sobre isso e, diferentemente dos Católicos Apostólicos Romanos eles não a chamam a "Rainha dos Céus". A tradição de que o corpo de Maria foi levado aos céus não é antiga. A bíblia não diz nada sobre como ela morreu. Na verdade, a pobre mulher quase não é mencionada na biblia de um modo geral. A crença de que seu corpo tenha sido levado aos céus não foi inventada até seis séculos após a época de Jesus. Ao que tudo indica, ela foi inventada da mesma forma que qualquer outra estória, tal como a Branca de Neve. Mas, através dos séculos, ela cresceu na tradição e as pessoas começaram a tomá-la seriamente simplesmente pelo fato da estória ter sido transmitida por muitas gerações. Quanto mais antiga uma tradição se torna, mais pessoas as tomam seriamente. A estória foi finalmente escrita e tomada como um crença Católica Apostólica Romana até muito recentemente, em 1950, quando eu tinha a idade que você tem agora. Mas a estória não era mais verdadeira em 1950 do que ela era quando foi inicialmente inventada seiscentos anos após a morte de Maria.
 
Eu retomarei o tema da tradição no final da minha carta e analisarei sobre outro prisma. Mas antes, eu primeiro preciso lidar com as outras duas más razões para acreditar em algo: Autoridade e Revelação.
 
Autoridade, como um motivo para acreditar em algo, significa acreditar em algo porque você é orientado a acreditar nisso por alguém importante. Na igreja Católica Apostólica Romana o Papa é a pessoa mais importante, e as pessoas acreditam que ele deve estar certo simplesmente pelo fato de que ele é o Papa. Em uma vertente da religião muçulmana, as pessoas importantes são senhores de barbas brancas chamados aiatolás. Vários muçulmanos nesses países estão dispostos a cometer assassinatos, simplesmente pelo fato de que aitolás em um país distante lhes dizem para assim fazê-lo.
 
Quando eu digo que foi somente em 1950 que Católicos Apostólicos Romanos foram orientados a acreditar que o corpo de Maria partiu para os céus, quero dizer que foi em 1950 que o Papa disse às pessoas que elas tinham que acreditar nisso. E assim foi. O Papa disse que isso foi verdade, portanto isso tinha que ser verdade! Agora, provavelmente algumas coisas que o papa disse ao longo de sua vida foram verdades e algumas não foram. Não existe nenhuma boa razão do porque, simplesmente porque ele é o Papa, você deva acreditar em tudo que ele diga mais do que você acredite em qualquer coisa que outras pessoas digam. O atual Papa (1995) ordenou seus seguidores a não limitar o número de crianças que elas possam ter. Se as pessoas seguissem essa ordem tão servilmente como ele desejaria, os resultados poderiam ser terríveis crises de alimentos, enfermidades e guerras causadas pela superpopulação.
 
É claro, mesmo na Ciência, algumas vezes nós não vemos a evidência por nós mesmos e nós temos que considerar a palavra de outros nesse sentido. Eu não vi, com meus próprios olhos, evidência de que a luz viaja numa velocidade de 299.274 quilômetros por segundo. No entanto, eu acredito em livros que me falam sobre a velocidade da luz. Isso parece-se com "Autoridade". Mas na verdade, é muito melhor do que autoridade, pelo fato de que pessoas que escreveram os livros viram as evidências e qualquer um está livre para analisar cuidadosamente as evidências sempre que queiram. Isso é muito reconfortante. Mas nem mesmo os padres reivindicam qualquer evidência para a estória sobre o corpo de Maria partindo para os céus.
 
A terceira má razão para acreditar em qualquer coisa é chamada de "Revelação". Se você tivesse perguntado ao Papa em 1950 como ele soube que o corpo de Maria disparou aos céus, ele provavelmente teria dito que aquilo foi "revelado" a ele. Ele trancou-se em seu quarto e orou pedindo orientação. Ele refletiu e refletiu, tudo sozinho, e ficou mais e mais certo de si mesmo. Quando religiosos simplesmente tem uma sensação dentro deles mesmos de que algo deve ser verdade, mesmo que não exista evidência de que isso seja verdade, eles chamam essa sensação de "revelação". Não são somente papas que reivindicam ter revelações. Vários religiosos o fazem. É uma das principais razões para acreditar nas coisas que eles acreditam. Mas é essa uma boa razão ?
 
Suponhamos que eu diga a você que seu cão está morto. Você ficaria muito chateada e provavelmente diria "Tem certeza? Como você sabe que isso aconteceu?" Agora suponha que eu respondesse: "Na verdade eu não sei que Pepe está morto. Eu não tenho nenhuma evidência. Eu simplesmente tive a profunda e estranha sensação dentro de mim de que ele está morto". Você ficaria muito chateada comigo por estar te assustando pelo fato de que você sabe que um "sentimento" profundo por si só não é uma boa razão para acreditar que um cão está morto. Você precisa de evidências. Todos nós temos sensações internas de tempos em tempos. Algumas vezes elas mostram-se corretas e algumas vezes não. De qualquer forma, diferentes pessoas tem sensações distintas. Assim como podemos nós decidir quais sensações são corretas ? A única forma de ter certeza que um cão está morto é vê-lo morto, ou escutar que seu coração parou de bater, ou ser comunicado por alguém que tenha visto ou escutado alguma real evidência de que ele está morto.
 
Pessoas algumas vezes dizem que você precisa acreditar em seus sentimentos internos, ou de outra forma você nunca irá ter certeza de coisas como "minha esposa me ama". Mas esse é um péssimo argumento. Existirão uma série de evidências de que alguém ama você. Ao longo do dia em que você está com quem te ama, você vê e escuta uma série de pequenos indícios de evidência e todos eles se somam. Não é puramente uma sensação interna, como a sensação que padres chamam de revelação. Existem fatores externos que suportam essa sensação interna: o olhar nos olhos, suaves nuances na voz, pequenos favores e gentilezas. Essas são reais evidências.
 
Algumas vezes pessoas tem a forte sensação interna de que alguém as ama mesmo não estando embasadas em qualquer evidência,(nesse caso, provavelmente elas estarão completamente equivocadas). Existem pessoas com uma forte sensação interna de que famosos astros de filmes as amam, quando na verdade o astro nunca viu essa pessoa. Pessoas como essas tem problemas mentais. Sensações internas devem ser suportadas por evidências, ou de outra forma você não pode confiar nelas.
 
Sensações internas são valiosas em Ciência também, mas somente por darem a você idéias que você posteriormente testa-as buscando por evidências. Um cientista pode ter uma "intuição" sobre uma idéia que o faça "sentir" ser correta. A intuição ela mesma, não é uma boa razão para acreditar em algo. Mas ela pode ser uma boa razão para gastar algum tempo fazendo um experimento em particular, ou buscar de uma forma específica por alguma evidência. Cientistas usam sensações internas o tempo todo para ter idéias. Mas elas só terão algum valor até que alguém as suporte por evidências.
 
Eu prometi que retomaria o tema da tradição e a analisaria de outra forma.. Eu quero tentar explicar porque a tradição é tão importante para nós. Todos os animais foram "criados" (por um processo chamado de Evolução) para sobreviver nos lugares nos quais exemplares de sua espécie habitem. Leõs foram "criados" para serem bons em sobreviverem nas planícies da África. Lagostins para serem bons em sobreviver em águas frescas enquanto lagostas são desenvolvidas para serem boas em águas salgadas. Pessoas são animais também, e nós fomos desenvolvidos para sobreviver em mundo repleto de...outras pessoas. A maioria de nós não caça pela própria comida como os leões e lagostas; nós a compramos de outras pessoas que a tenham obtido de outras pessoas. Nós "nadamos" no meio de um "mar de pessoas". Da mesma forma que um peixe precisa de brânquias para sobreviver na água, pessoas precisam de cérebros para torná-las capazes de lidar com outras pessoas. Assim como o mar é cheio de água salgada, o mar de pessoas é cheio de coisas difíceis de aprender. Como a linguagem.
 
Você fala inglês mas sua amiga Ann-Kathrin fala alemão. Cada um de vocês fala o idioma que melhor lhes permite "nadar entre" no meio de seus "mares de pessoas" individuais. A linguagem é transmitida pela tradição.Não existe outra forma. Na inglaterra, Pepe é um cão. Na Alemanha ele é ein Hund. Nenhuma dessas palavras é mais correta que a outra, ou mais verdadeira que a outra. Ambas são simplesmente transmitidas. De modo a serem boas em "nadar em um mar de pessoas", crianças têm que aprender a linguagem de seu próprio país, e várias outras coisas sobre seu povo; e isso significa que ela têm que absorver (como papel absorvente) uma enorme quantidade de informação tradicional (Lembre-se que informação tradicional apenas significa coisas que são transmitidas de avós para pais para filhos). O cérebro da criança tem que ser uma esponja para informação tradicional. E não se pode esperar que a criança saiba selecionar a boa e útil informação tradicional (como as palavras de uma linguagem) da má e inútil informação tradicional, (como acreditar em bruxas e demônios e virgens celestiais).
 
É uma pena (e não ajuda em nada) de que devido ao fato de que crianças tenham que ser captadoras de informação tradicional, que elas provavelmente acreditem em qualquer coisa que os velhos lhes contem, sejam elas verdadeiras ou falsas, certas ou erradas. A maioria do que os velhos lhes contam é verdade e baseada em evidências, ou no mínimo sujeitas a tal. Mas se algo disso é falso, bobo ou mesmo distorcido, não existe nada que impeça a criança de acreditar naquilo, também. Agora, quando a criança cresce, o que ela faz ? Bom, naturalmente, elas transmitem as crenças para a próxima geração de crianças. Assim, uma vez que algo fica fortemente enraizado - mesmo se isso é completamente falso e nunca tenha existido qualquer razão para acreditar nisso inicialmente - a crença pode seguir eternamente.
 
Pode ter sido o que aconteceu com as religiões ? Acreditar que existe um deus ou deuses, acreditar em paraíso, acreditar que Maria nunca morreu, acreditar que Jesus nunca teve um pai humano, acreditar que orações são respondidas, acreditar que o vinho transforma-se em sangue - nenhuma dessas crenças é suportada por qualquer boa evidência. Ainda assim, milhões de pessoas acreditam nelas. Talvez porque elas foram ensinadas a acreditar nelas quando eram jovens o suficiente para acreditar em qualquer coisa.
 
Milhões de outras pessoas acreditam em coisas bem diferentes, pelo fato de que elas foram ensinadas a acreditar em coisas diferentes quando eram crianças. Crianças muçulmanas são ensinadas a coisas diferentes das crianças cristãs, e ambas crescem fortemente convencidas de que elas estão certas e de que as outras estão erradas. Mesmo entre os cristãos, Católicos Apostólicos Romanos acreditam em diferentes coisas das pessoas da Igreja da Inglaterra ou dos Episcopais, Shakers ou Quakers, Mórmons, ou "Roladores Divinos" e estão todos fortemente convencidos de que eles estão certos e os outros errados. Eles acreditam em diferentes coisas exatamente pela mesma razão de que você fala inglês e Ann Kathrin fala alemão. Ambas as linguagens, são em seus próprios países, a linguagem certa a ser falada. Mas não pode ser plenamente coerente que diferentes religiões sejam as corretas em seus próprios países, pelo simples fato de que diferentes religiões afirmam que coisas completamente opostas são as verdadeiras de fato. Maria não pode estar viva na Irlanda Católica do Sudeste mas morta na Irlanda Protestante do Nordeste.
 
O que nós podemos fazer diante de tudo isso ? Não é fácil para você fazer nada, pelo fato de que você tem apenas dez anos de idade. Mas você pode tentar isto: na próxima vez que alguém lhe disser algo que soe importante, pense você mesma: "É esse o tipo de coisa que pessoas provavelmente sabem através das evidências ? Ou é esse o tipo de coisa que pessoas acreditam somente por causa da tradição, autoridade ou revelação ?" E, na próxima vez que alguém lhe diga que algo é verdade, por que não perguntar-lhe : "Que tipo de evidência existe para isso?" E se ela não puder lhe dar uma boa resposta, eu espero que você pense muito cautelosamente antes de você acreditar em qualquer palavra que essa pessoa diga.
 
Seu amado pai.
 
Richard

domingo, 4 de maio de 2008

No Kidding


Entrevista de Jerry Steinberg, fundador do "No Kidding" (www.nokidding.net) à revista Época.

Em respostas curtas e diretas, a essência da real motivação absurda dos que querem ter filhos.


ÉPOCA - Não ter filhos não é impedir o ciclo natural da vida?
Jerry Steinberg - E por acaso nós levamos uma vida "natural"? Não estamos mais numa sociedade agrária, em que a criança era mão-de-obra barata na fazenda. Mais de 80% da população mundial vive em grandes cidades. As crianças não são mais um ativo, mas um rombo em seu tempo, em sua energia e em suas finanças. Ter filhos, hoje, na maioria dos casos, é conseqüência natural de sexo sem proteção. Com a contracepção moderna, pessoas responsáveis terão filhos apenas se quiserem. Nossos avós não tinham escolha, e às vezes acabavam com uma penca de crianças sem ao menos poder mantê-las. Nós temos controle sobre nossa fertilidade e devemos exercê-lo.

ÉPOCA - Não é muito egoísta a decisão de não ter filhos?
Steinberg - É. Mas as pessoas têm filhos por razões bastante egoístas: por prazer, para cuidar delas na velhice, para ter alguém para amar e amá-las de volta, para viver coisas que não puderam viver quando eram crianças, para exercer poder sobre alguém, dar continuidade ao nome da família. O que é mais egoísta que fazer um minieu? É vaidade.

ÉPOCA - Qual porcentagem da população tem filhos por motivos que o senhor considera corretos?
Steinberg - A maioria das pessoas tem filhos sem motivo, sem pensar. A resposta que sempre ouço é que aconteceu sem planejamento. Acho irresponsável, tolo e egoísta. Crianças são muito preciosas para vir ao mundo por acidente.

ÉPOCA - O senhor acha que as pessoas que optam por ter filhos devem ser questionadas, assim como ocorre com aquelas que escolhem não procriar?
Steinberg - É claro! A situação hoje é muito unilateral. Os casais que optam por não ter filhos precisam se justificar o tempo todo, para a família, para os amigos e até para estranhos. Enquanto isso, lemos nos jornais todos os dias sobre pessoas que nunca deveriam ter procriado. Vemos crianças abandonadas, negligenciadas, que sofrem abuso, pais que largam a família e não pagam pensão nem querem ver o filho.

ÉPOCA - Por outro lado, a maternidade e a paternidade não são dons naturais, intrínsecos ao ser humano?
Steinberg - De modo algum. Ser boa mãe ou bom pai requer muito conhecimento, dom, habilidade, paciência, energia e tempo. Se você não tem isso, quais são suas chances reais de sucesso? Parece-me que as pessoas gastam mais tempo pensando que sapato comprar que em se querem ou não ter filhos. É uma vergonha.

ÉPOCA - Ter filhos não pode ser uma forma de dividir as coisas boas que um casal construiu?
Steinberg - Pode, mas em muitos casos é uma desculpa para o fracasso pessoal. Muita gente abandona as aspirações de carreira ou de hobby porque tem de sustentar os filhos. Depois, cobra isso da criança, busca realização por meio dela. É muito cruel exigir que o filho tome conta dos negócios da família. Talvez ele não tenha nem interesse nem competência. No fim, é uma pena para todos.

ÉPOCA - Qual é o impacto de filhos na vida de um casal?
Steinberg - Uma tremenda perda de liberdade. Não se pode mais fazer o que se quer, quando se quer. A espontaneidade morre. Perdem-se tempo, energia, dinheiro. Custa cerca de US$ 200 mil criar alguém do nascimento aos 18 anos. Sem faculdade. Muitas vezes um casal rompe por problemas financeiros. Portanto, se você não tem uma situação confortável e resolve ter filhos, está procurando encrenca. Sem falar no fato de os pais discordarem sobre como cuidar dos filhos. Não tê-los dá ao casal menos motivos para conflitos.

ÉPOCA - Mas então não seria melhor rever a forma como se educam os filhos em vez de resolver não tê-los?
Steinberg - Há um problema no modelo adotado pela classe média. Antes os pais ditavam as regras, mas a mesa virou e agora são as crianças que mandam nos pais. Elas fazem o que querem em locais públicos e os pais se omitem, numa situação desagradável para os outros.

ÉPOCA - Filho ajuda o casamento?
Steinberg - Os padres dizem que filhos são uma ponte entre marido e mulher. Na verdade, eles são um abismo. O marido passa para segundo plano, sente-se preterido e acaba buscando outra mulher. Tive acesso a vários estudos que mostram que relacionamentos sem filhos são mais sólidos e duram mais. O romance morre quando as crianças nascem.

ÉPOCA - O senhor também defende aquela tese aparentemente fajuta de que não ter filhos é uma decisão ecologicamente correta?
Steinberg - Não tem nada de fajuto nessa teoria. A quantidade de terra arável, de água potável e de espaço habitável está limitada no planeta. As pessoas estão sendo forçadas a viver confinadas ou em locais inundáveis ou secos. Não há pasto. A maioria da população está em centros urbanos, e isso cria vários problemas. Não se produz nada na cidade, tudo tem de vir de fora. Aí há trânsito. Além disso, existe uma questão psicológica: quanto mais gente viver em áreas superpopulosas, maior serão a agressividade e a violência. Estamos sob tremenda pressão.

ÉPOCA - A tecnologia e o urbanismo não poderão solucionar esses problemas?
Steinberg - Não há tecnologia que resolva isso. Hoje levamos uma hora para chegar ao mesmo lugar a que antes chegávamos em dez minutos. Daqui a 20 ou 40 anos, vamos levar três horas. É loucura, tem de haver um limite. Os animais são mais sábios. Quando ficam confinados, com pouco alimento, se reproduzem menos. Humanos não fazem isso. Metade das pessoas deste planeta está morrendo de fome ou de sede. E continuamos procriando a taxas recordes. Em apenas 40 anos, dobramos a população de 3 bilhões para 6 bilhões. Onde vamos parar? Será preciso uma terceira guerra mundial ou epidemias como a Aids para nos colocar de novo em patamares suportáveis?

ÉPOCA - O que acha do aborto?
Steinberg - Com boa contracepção, as pessoas só têm filhos se os querem e podem sustentá-los. Caso contrário, o aborto se torna uma opção. Prevenir gravidez indesejada evita abortos.

ÉPOCA - Pessoas sem filhos não evoluem menos?
Steinberg - Não, ao contrário. A maioria das pessoas sem filhos que conheço é muito ativa em sua comunidade, faz trabalho voluntário. O foco de quem tem filhos fica mais estreito: é o lar. Se determinado problema não afeta diretamente seus filhos, não se envolve.

ÉPOCA - Quem tem filhos acaba abrindo mão de algo realmente importante?
Steinberg - Sair para uma cerveja com amigos não é alta prioridade. Mas muita gente precisa parar de estudar ou encurtar os planos para trabalhar. As aspirações de carreira podem ficar limitadas. Muitas vezes quem tem filho chega tarde ao trabalho e sai cedo, passa tempo no telefone falando com as crianças ou resolvendo problemas relativos a elas. Isso pode contribuir para que seja preterido na hora de uma promoção.

ÉPOCA - Por que ainda vemos com estranheza quem opta por não ter filhos?
Steinberg - Mudanças levam tempo. A aceitação de estilos de vida alternativos demora. Há 50 anos era inconcebível viver junto sem casar. Era pecado. O mesmo valia para mães solteiras ou uniões inter-raciais. Hoje em dia casais homossexuais adotam crianças ou fazem fertilização para ter os próprios filhos. Vamos chegar a um ponto em que não procriar também será aceito. Quem, em seu juízo perfeito, insistiria que tenha filhos uma pessoa que não quer, não tem como bancar e não saberá criar adequadamente uma criança?

ÉPOCA - Como responder à clássica pergunta "Você não vai ter filhos"?
Steinberg - Alguns membros do No Kidding respondem que não podem ter filhos. Acham que a pena que isso desperta é mais suportável que a indignação. Se alguém insiste comigo, eu digo: "Então tá, você me convenceu. Vou ter dez filhos e, se não der certo, mando para sua casa para você criar".